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sábado, 3 de dezembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
2ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre - RS
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| Foto da 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre |
Nos dias 11, 12, 13 e 14 de Novembro, vai acontecer em Porto Alegre (RS) a tão esperada 2ª Feira do Livro Anarquista!
Estamos construindo a programação da feira, e para isto estamos fazendo esse chamado aberto para todo/as que estejam interessado/as em ajudar nesta construção. Você pode se envolver de três jeitos:
• Propondo algum bate-papo, palestra, oficina ou o que mais quiser incluir na programação da feira;
• Colaborar em alguma das comissões de organização da feira, que são: alimentação, infraestrutura, bebidas/bar e a ciranda, que cuidará das crianças do/as participantes do evento;
• Trazendo materiais para exposição.
Então se alguém que virá quiser participar ativamente na organização do evento, pedimos que mande um e-mail para flapoa@libertar.se e coloque no assunto: “colaborar”. Não esqueça de descrever a sua proposta de atividade e/ou a comissão com a qual quer contribuir, para podermos já nos organizar com o número de voluntário/as.
Também quem for vir com material para exposição, e necessitar bancas, também pedimos para que mandem e-mail requisitando-as para que possamos providenciá-las.
Para o/as compas que virão de outras cidades, estaremos disponibilizando lugares para ficarem durante os dias da feira, mas para isso é necessário que enviem com antecedência um e-mail para flapoa@libertar.se e coloque no assunto: “alojamento”. Iremos pedir para os que precisarem de estadia uma contribuição de 10 reais para cobrir alguns dos custos do evento. Lembramos da necessidade de trazerem colchonetes e cobertas. Também vai ter uma área fora que quem tiver barraca vai poder acampar.
Teremos uma comissão para cuidar das crianças que forem vir para o evento enquanto os pais participam das atividades, inclusive desenvolvendo atividades próprias para elas. Portanto, na hora de se inscreverem, por favor também avisem se vem crianças junto, e a idade, para podermos preparar algo bacana.
No mais, fica o chamado para todo/as virem prestigiar o evento, que será marcado por bate-papos, oficinas, livros, filmes, contatos e amizades, enfim, vivências em geral que tanto contribuem para a nossa aproximação enquanto anarquistas.
Este ano também estará acontecendo, nas noites do evento, o 1° Festival de Música Anarquista da FlaPoA, que já conta com bandas de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e, claro, as bandas locais. Se você tem alguma banda e quiser tocar no evento, deixamos aberto o chamado para participarem! Também é só entrar em contato por e-mail!
Comissão de Organização¹ da 2ª Feira do Livro Anarquista
Mais infos: flapoa@libertar.se
[1] Fazemos reuniões abertas semanais de organização, quem quiser comparecer entrar em contato por e-mail.
Fonte: http://noticiasanarquistas.noblogs.org
Página do evento: http://flapoa.deriva.com.br/
Relato da 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre
Fotos da 1ª Feira...
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Lima Barreto - Leitura de Jornais
Em tempos de euforia gerada pelos eventos vindouros (Copa do Mundo, Olimpíadas), a racionalização dos gastos é ignorada. Que outra finalidade pode ter a verba pública senão a de locupletar aos digníssimos representantes do povo? Isso, no plano mais evidente da rapinagem. Fora dele, há a especulação imobiliária que vai traçando paisagens, adotando perspectivas qual um pintor naturalista e definindo onde cada um vive ou vai viver, aonde cada um anda ou vai andar, onde cada um dorme ou vai dormir. São muitos os problemas com os quais nos depararemos nessa longa caminhada de 5, 6 anos.
Vem a calhar um texto barretiano. Lima Barreto (1881-1922), escritor para quem o significado importava mais do que as acrobacias fonéticas ou lingüísticas, publica o texto "Leitura de jornais" um ano antes de sua morte na antiga revista ilustrada Careta. Em 19 de março de 1921, sai o texto irônico que comparava a atitude de alguns brasileiros com a adotada na Argentina no que concerne ao gasto do dinheiro público, quando ainda se vivia uma acirrada disputa entre as capitais dos dois países para saber qual seria a mais moderna e européia. Os tempos eram outros, já os problemas...
Leitura de Jornais
Não há dúvida alguma que o embelezamento das cidades sobreleva as questões de higiene e de assistência que elas também reclamam. É isto que se tem visto em toda a parte, principalmente nas capitais de tiranos asiáticos, onde se erguem monumentos maravilhosos de mármore e ouro, de ônix e porcelana, de ouro e jaspe, em cidades que não têm água nem esgotos e o grosso da população habita choupanas miseráveis.
Essa regra geral das administrações asiáticas obedece a certo critério de origem divina, em que se estatui que o senhor e os senhores têm direito a tudo; e os restantes, no máximo, a vida, e são obrigados a pagar impostos para gáudio daqueles outros.
Mais ou menos, em obediência a essa regra, foi que se ergueram tantos monumentos célebres no mundo inteiro, desde o “Palácio do Serralho”, em Constantinopla, até o Taj-Mahal, de Agra, na Índia, com a moldura de uma cidade de miseráveis.
Com o advento da democracia nos países de origem europeia, especialmente no nosso, depois da proclamação da república, essa regra asiática tem sido mais ou menos obedecida, com o caráter cenográfico, que nos é próprio.
Ainda há dias, lendo os jornais desta cidade tive ocasião de verificar essa feição característica da nossa mentalidade administrativa.
O excelente O Jornal, nos primeiros dias deste mês, lamentava que a municipalidade ainda não houvesse levado a efeito, a construção de um stadium, no Leblon.
Reproduzia a planta respectiva que a edilidade, com grande menosprezo pelos interesses vitais do povo, tinha atirado ao pó dos arquivos. Lastima-se o redator da notícia assim: “Diante dessas informações perguntamos: Por que se abandonou assim um projeto sob todos os títulos grandioso, para se fazer a concessão de hoje, que tantos comentários vão provocando?”.
Não há dúvida alguma que tal abandono é motivo de lástima a mais profunda, porquanto já temos para realçar semelhantes grandiosos projetos dessa natureza, os magníficos repoussoirs da Favela, do Salgueiro, do Nheco e outros em muitos morros e colinas que são descritos por um jovem jornal desta cidade, O Dia, de 3 do corrente, desta maneira:
São puras criações de iniciativa particular que se mostra assim solícita para abrigar os pobres e dotar a cidade com essas curiosas construções, dignas de Hué ou de São Paulo de Luanda.
Buenos Aires, que não nos deixa dormir, tendo lá cousa semelhante, tratou de acabar com tão pitorescas excrescências. Que fez? Construiu pistas ou arenas de jogos atléticos? Não: construiu casas, conforme informa o último dos jornais citados, que ele descreve desta forma:
A nossa origem divina, ou melhor: a origem divina dos nossos dirigentes não lhes permite ter dessas cogitações práticas e comuns de casas para desafortunados.
Não seria possível que o sultão de Mossul fosse se preocupar com casas para o seu povo; mas, quando a bexiga irrompe, sabe ele da existência de uma plebe necessitada na sua capital, e, então, manda-a vacinar a toda pressa, sob pena de cortar a cabeça os recalcitrantes, com medo que a difusão da peste venha enfear as sultanas do seu mimo.
São essas as considerações que me vieram ao fazer a leitura, com intervalo de dias, de dous grandes jornais cariocas que já citei.
Por aí, vim a concluir que a nossa administração ainda se guia pela estética urbana dos rajás asiáticos e que, sob este aspecto, ela é absolutamente original nestas américas e talvez nas európicas.
Os seus arquivos, o que faz supor a descoberta do plumitivo do O Jornal, devem regurgitar de planos de prados, coliseus, frontões, boliches, teatros, palácios, etc. etc.
Entretanto, ela não presta atenção nos meios de enfear e emporcalhar mais a Favela, embora os seus propósitos de embelezamento de Copacabana e arredores peçam logicamente, de acordo com a sua doutrina calcutaense, a transformação daquele e outros morros que circundam a cidade, na cousa mais repugnante deste mundo...
A leitura dos jornais é sempre utilíssima, como já disse o outro.
A grafia de estrangeirismos foi mantida como aparece no original.
Leitura de Jornais
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| Afonso Henriques de Lima Barreto em 1919 |
Essa regra geral das administrações asiáticas obedece a certo critério de origem divina, em que se estatui que o senhor e os senhores têm direito a tudo; e os restantes, no máximo, a vida, e são obrigados a pagar impostos para gáudio daqueles outros.
Mais ou menos, em obediência a essa regra, foi que se ergueram tantos monumentos célebres no mundo inteiro, desde o “Palácio do Serralho”, em Constantinopla, até o Taj-Mahal, de Agra, na Índia, com a moldura de uma cidade de miseráveis.
Com o advento da democracia nos países de origem europeia, especialmente no nosso, depois da proclamação da república, essa regra asiática tem sido mais ou menos obedecida, com o caráter cenográfico, que nos é próprio.
Ainda há dias, lendo os jornais desta cidade tive ocasião de verificar essa feição característica da nossa mentalidade administrativa.
O excelente O Jornal, nos primeiros dias deste mês, lamentava que a municipalidade ainda não houvesse levado a efeito, a construção de um stadium, no Leblon.
Reproduzia a planta respectiva que a edilidade, com grande menosprezo pelos interesses vitais do povo, tinha atirado ao pó dos arquivos. Lastima-se o redator da notícia assim: “Diante dessas informações perguntamos: Por que se abandonou assim um projeto sob todos os títulos grandioso, para se fazer a concessão de hoje, que tantos comentários vão provocando?”.
Não há dúvida alguma que tal abandono é motivo de lástima a mais profunda, porquanto já temos para realçar semelhantes grandiosos projetos dessa natureza, os magníficos repoussoirs da Favela, do Salgueiro, do Nheco e outros em muitos morros e colinas que são descritos por um jovem jornal desta cidade, O Dia, de 3 do corrente, desta maneira:
Encontram-se extensos aldeamentos de casas construídas com folhas de latas de gasolina, ripas de caixas de batata e caixões de automóveis. (...) Por essas barracas, que seria impossível de qualificar de casebres, porque nelas nenhum homem rico abrigaria o seu cão de estima, cobram-se de 30$ a 50$000 por mês e até mais.Convém notar que essas maravilhas nada custaram à prefeitura, e, nem ao menos, exigem-lhe o trabalho de cobrar-lhes impostos ou dízimos quaisquer.
São puras criações de iniciativa particular que se mostra assim solícita para abrigar os pobres e dotar a cidade com essas curiosas construções, dignas de Hué ou de São Paulo de Luanda.
Buenos Aires, que não nos deixa dormir, tendo lá cousa semelhante, tratou de acabar com tão pitorescas excrescências. Que fez? Construiu pistas ou arenas de jogos atléticos? Não: construiu casas, conforme informa o último dos jornais citados, que ele descreve desta forma:
Essas casas, construídas com armações de madeira ou ferro, oferecem aos seus habitantes o melhor conforto, pois todas elas, como se pode verificar nos projetos do Senhor Ayerza, dispõem de ótimas acomodações, água corrente, banheiros, salas, luz e ventilação, enfim, tudo o que se torna necessário ao bem-estar dos moradores.Está se vendo por aí que os nossos vizinhos não têm o espírito olímpico; mas, uma alma cheia de baixas e subalternas preocupações burguesas.
A nossa origem divina, ou melhor: a origem divina dos nossos dirigentes não lhes permite ter dessas cogitações práticas e comuns de casas para desafortunados.Não seria possível que o sultão de Mossul fosse se preocupar com casas para o seu povo; mas, quando a bexiga irrompe, sabe ele da existência de uma plebe necessitada na sua capital, e, então, manda-a vacinar a toda pressa, sob pena de cortar a cabeça os recalcitrantes, com medo que a difusão da peste venha enfear as sultanas do seu mimo.
São essas as considerações que me vieram ao fazer a leitura, com intervalo de dias, de dous grandes jornais cariocas que já citei.
Por aí, vim a concluir que a nossa administração ainda se guia pela estética urbana dos rajás asiáticos e que, sob este aspecto, ela é absolutamente original nestas américas e talvez nas európicas.
Os seus arquivos, o que faz supor a descoberta do plumitivo do O Jornal, devem regurgitar de planos de prados, coliseus, frontões, boliches, teatros, palácios, etc. etc.
Entretanto, ela não presta atenção nos meios de enfear e emporcalhar mais a Favela, embora os seus propósitos de embelezamento de Copacabana e arredores peçam logicamente, de acordo com a sua doutrina calcutaense, a transformação daquele e outros morros que circundam a cidade, na cousa mais repugnante deste mundo...
A leitura dos jornais é sempre utilíssima, como já disse o outro.
L. B.
Careta 19-03-1921
A grafia de estrangeirismos foi mantida como aparece no original.
sábado, 16 de julho de 2011
Lançamento do livro "Negras Tormentas", de Alexandre Samis - 19/07
Nesta terça-feira ocorrerá em São Paulo o lançamento do livro Negras tormentas: O Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris, de Alexandre Samis. Também será exibido o filme "A Comuna" (1914), produzido pelo grupo Cinema do Povo.
Quem está realizando o lançamento e a projeção do filme é a Biblioteca Terra Livre.
19/07 - Terça-Feira - 19h
Lançamento do livro e debate com o autor:
NEGRAS TORMENTAS
O Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris
Autor: Alexandre Samis
370 páginas – Editora Hedra
Exibição do Filme:
A COMUNA (La Commune)
França, 1914, 35mm, preto e branco, 22min
cp: Cinéma du Peuple; d e r: Armand Guerra
LOCAL: SEDE DO SINSPREV/SP
Rua Antonio de Godoy, 88 – 2º andar – Centro
Próximo ao Metrô São Bento
(descer no metrô e atravessar o viaduto Santa Ifigênia)
Fone: (11) 3352-4344
Quem está realizando o lançamento e a projeção do filme é a Biblioteca Terra Livre.
19/07 - Terça-Feira - 19h
Lançamento do livro e debate com o autor:
NEGRAS TORMENTASO Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris
Autor: Alexandre Samis
370 páginas – Editora Hedra
Exibição do Filme:
A COMUNA (La Commune)
França, 1914, 35mm, preto e branco, 22min
cp: Cinéma du Peuple; d e r: Armand Guerra
LOCAL: SEDE DO SINSPREV/SP
Rua Antonio de Godoy, 88 – 2º andar – Centro
Próximo ao Metrô São Bento
(descer no metrô e atravessar o viaduto Santa Ifigênia)
Fone: (11) 3352-4344
terça-feira, 14 de junho de 2011
Rádio Cordel Libertário - Emissões 14/06 e 17/06
14/06 - Entrevista com Karolina (Colômbia) - 21h10
Logo mais, a Rádio Cordel Libertário veiculará entrevista com a militante colombiana Karolina.
17/06 - Entrevista com o rapper Fábio (Bandeira Negra - Rap Libertário) - 21h10.
A rádio segue com sua importantíssima contribuição, aglutinando forças dentro das movimentações libertárias pelo Brasil, dando voz à diversos grupos.
Para maiores informações e para ouvir a programação acessem a página da rádio!
Logo mais, a Rádio Cordel Libertário veiculará entrevista com a militante colombiana Karolina.
17/06 - Entrevista com o rapper Fábio (Bandeira Negra - Rap Libertário) - 21h10.
A rádio segue com sua importantíssima contribuição, aglutinando forças dentro das movimentações libertárias pelo Brasil, dando voz à diversos grupos.
Para maiores informações e para ouvir a programação acessem a página da rádio!
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Rádio Cordel Libertário - Programa de Sexta 10/06
Nesta sexta-feira a Rádio Cordel Libertário veicula entrevista com o Coletivo Arterizar, de Florianópolis-SC.
Como o coletivo catarinense fala e produz arte, a entrevista é mais do que recomendada.
O programa vai ao ar às 21h10 dessa sexta (10/06). E é reprisado no dia seguinte às 9h.
Como o coletivo catarinense fala e produz arte, a entrevista é mais do que recomendada.
O programa vai ao ar às 21h10 dessa sexta (10/06). E é reprisado no dia seguinte às 9h.
terça-feira, 3 de maio de 2011
El Surco 26 - Maio 2011
Já se encontra disponível a edição de número 26 do El Surco, periódico anarquista chileno.
Para ler, clique aqui!
Conteúdo:
Editorial
De la realidad actual y la desigualdad social y económica
Artículos
El montaje comienza a caer
Trabajo infantil - La Naturalización de un Abuso
Documento: La dictadura del reloj
Contra el chauvinismo clasista - Parte 2, Conclusión
Represión a los Mapuche en Panguipulli
La Mujer Anarquista durante fines de siglo XIX y principios del XX en Chile
e mais.
E devemos dar crédito à imprensa anarquista, e em específico a este jornal chileno, que desde o princípio denunciou a farsa do "Caso Bombas". Nesta montagem da polícia chilena foram presos 14 anarquistas acusados de participarem de atentados com explosivos. Apesar das estranhas provas e dos obscuros depoimentos, os anarquistas foram presos preventivamente. Depois da greve de fome e da reconhecida falta de provas, cinco anarquistas foram libertados na última semana. Seguimos pedindo Libertad a los 14 A!
Para ler, clique aqui!
Conteúdo:
Editorial
De la realidad actual y la desigualdad social y económica
Artículos
El montaje comienza a caer
Trabajo infantil - La Naturalización de un Abuso
Documento: La dictadura del reloj
Contra el chauvinismo clasista - Parte 2, Conclusión
Represión a los Mapuche en Panguipulli
La Mujer Anarquista durante fines de siglo XIX y principios del XX en Chile
e mais.
E devemos dar crédito à imprensa anarquista, e em específico a este jornal chileno, que desde o princípio denunciou a farsa do "Caso Bombas". Nesta montagem da polícia chilena foram presos 14 anarquistas acusados de participarem de atentados com explosivos. Apesar das estranhas provas e dos obscuros depoimentos, os anarquistas foram presos preventivamente. Depois da greve de fome e da reconhecida falta de provas, cinco anarquistas foram libertados na última semana. Seguimos pedindo Libertad a los 14 A!
sábado, 23 de abril de 2011
sexta-feira, 15 de abril de 2011
El Surco 25 - Abril 2011
Saiu o número 25 do periódico chileno El Surco.
Para acessar o arquivo em pdf, clique aqui!
Nesta edição:
+ Editorial: De la libre iniciativa individual y la gestión autónoma de nuestras vidas.
+ ¡Huelga de Hambre!, poema anarquista de 1934
+ Teatro y anarquismo.
+ Las revueltas sociales en Medio Oriente
+ Todo Ejército es un crimen contra la humanidad.
+ Entrevista al Proyecto Educativo libertario Wenuleufü de Niebla
+ Teodoro Brown y Víctor Garrido: Historia de dos peluqueros anarquistas
+ Ubicación y Condenas solicitadas a lxs compxs del 14 A
+ Reseña: Anarquismo y cárceles de Rodolfo Montes de Oca
+ Caricaturas y más
Para acessar o arquivo em pdf, clique aqui!
Nesta edição:+ Editorial: De la libre iniciativa individual y la gestión autónoma de nuestras vidas.
+ ¡Huelga de Hambre!, poema anarquista de 1934
+ Teatro y anarquismo.
+ Las revueltas sociales en Medio Oriente
+ Todo Ejército es un crimen contra la humanidad.
+ Entrevista al Proyecto Educativo libertario Wenuleufü de Niebla
+ Teodoro Brown y Víctor Garrido: Historia de dos peluqueros anarquistas
+ Ubicación y Condenas solicitadas a lxs compxs del 14 A
+ Reseña: Anarquismo y cárceles de Rodolfo Montes de Oca
+ Caricaturas y más
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Festa de encerramento do Espaço Impróprio 22, 23 e 24/04
"O Impróprio é um espaço (Anti)Cultural, autogestionário e anti-hierárquico que começou em junho de 2003. Localizado no Centro de São Paulo, o espaço vem oferecendo eventos com shows, palestras, debates, oficinas, vídeos, uma biblioteca, estúdio, lanchonete vegan e um bar."
E chega ao fim mais um espaço autogestionário.
Para a nota do fim - http://espacoimproprio.wordpress.com/o-fim/
Programaçao - http://espacoimproprio.wordpress.com/atividades/
Para maiores informações: Espaço Impróprio
E chega ao fim mais um espaço autogestionário.
Para a nota do fim - http://espacoimproprio.wordpress.com/o-fim/
Programaçao - http://espacoimproprio.wordpress.com/atividades/
Para maiores informações: Espaço Impróprio
sábado, 2 de abril de 2011
A MORTE e a morte...
Passeando pelo blog de Ezio Bazzo me deparei com esse texto – "E NAS DITAS REPÚBLICAS DEMOCRÁTICAS até mesmo no reino dos mortos há sujeitos de PRIMEIRA e sujeitos de SEGUNDA". O vigoroso escrito fala sobre a diferença no tratamento dispensado a UM MORTO e a vários mortos.
Sugiro, como trilha sonora, aos que gostem de um som um pouco mais pesado, a canção "Los gritos del silencio I" do extinto grupo espanhol Los Muertos de Cristo. A música saiu no disco Rapsodia Libertaria vol. I (2004). Vai a letra...
"Los gritos del silencio I"
Los Muertos de Cristo
Donde vas con paquetes y listas
que de prisa te veo correr.
Al congreso de los anarquistas
por hablar y hacerme entender.
Explicadme un momento siquiera
anarquista que quiere decir.
La inmensa falange obrera
que reclama el derecho a vivir.
El obrero que suda y trabaja
dime cómo es que puede estar mal.
Pues el burro que come la paja
lleva el grano para otro animal.
Es extraño pero no lo entiendo
qué pretende tu nueva alusión.
Que lo mismo le va sucediendo
al obrero con su producción.
Hoy ha muerto otra persona,
Víctima de un atentado,
No fue un tiro en la nuca,
Era un paria, un explotado,
Ha muerto trabajando,
Acosado por el miedo,
Miedo al verdugo,
Que amenaza con el paro.
No he visto su cara en los medios,
Ni tampoco manifestaciones,
No he visto minutos de silencio,
Ni como duelo un lazo en los balcones.
El pueblo hipnotizado,
A esta muerte no da importancia,
Mientras los asesinos,
Te hablan de democracia.
Hay muchas maneras de matar,
Y una de ellas es el silencio,
Hoy has vuelto a callar,
Y son más de mil los obreros muertos.
Hoy has vuelto a sentir,
La impotencia y el sufrimiento,
Hoy has vuelto a escuchar,
Los gritos del silencio.
No he visto al rey,
Ni tampoco al presidente,
dar el pésame a la madre,
Que está llorando su muerte.
Sólo era un sin nombre,
Un desheredado
Otro muerto de tercera,
En la estadística enterrado.
Pasemos a la noticia el día,
Manu Sánchez ¡Deportes!
Sí, el país está totalmente conmocionado,
Ronaldo se ha lesionado.
Hay muchas maneras de matar,
Y una de ellas es el silencio,
Hoy has vuelto a callar,
Y son más de mil los obreros muertos.
¡Muertos!
Hoy has vuelto a sentir,
La impotencia y el sufrimiento,
Hoy has vuelto a escuchar,
Los gritos del silencio.
Todo o trecho em itálico, no início da letra, pertence a uma canção anarquista de 1905 ("La verbena Anarquista"), e simula um diálogo entre uma mulher e um homem anarquista. Por sua vez, a música anarquista pode ser encontrada no disco Marchas y Canciones de Lucha de los Obreros Anarquistas Argentinos 1904-1936.
Sugiro, como trilha sonora, aos que gostem de um som um pouco mais pesado, a canção "Los gritos del silencio I" do extinto grupo espanhol Los Muertos de Cristo. A música saiu no disco Rapsodia Libertaria vol. I (2004). Vai a letra...
"Los gritos del silencio I"
Los Muertos de Cristo
Donde vas con paquetes y listas
que de prisa te veo correr.
Al congreso de los anarquistas
por hablar y hacerme entender.
Explicadme un momento siquiera
anarquista que quiere decir.
La inmensa falange obrera
que reclama el derecho a vivir.
El obrero que suda y trabaja
dime cómo es que puede estar mal.
Pues el burro que come la paja
lleva el grano para otro animal.
Es extraño pero no lo entiendo
qué pretende tu nueva alusión.
Que lo mismo le va sucediendo
al obrero con su producción.
Hoy ha muerto otra persona,
Víctima de un atentado,
No fue un tiro en la nuca,
Era un paria, un explotado,
Ha muerto trabajando,
Acosado por el miedo,
Miedo al verdugo,
Que amenaza con el paro.
No he visto su cara en los medios,
Ni tampoco manifestaciones,
No he visto minutos de silencio,
Ni como duelo un lazo en los balcones.
El pueblo hipnotizado,
A esta muerte no da importancia,
Mientras los asesinos,
Te hablan de democracia.
Hay muchas maneras de matar,
Y una de ellas es el silencio,
Hoy has vuelto a callar,
Y son más de mil los obreros muertos.
Hoy has vuelto a sentir,
La impotencia y el sufrimiento,
Hoy has vuelto a escuchar,
Los gritos del silencio.
No he visto al rey,
Ni tampoco al presidente,
dar el pésame a la madre,
Que está llorando su muerte.
Sólo era un sin nombre,
Un desheredado
Otro muerto de tercera,
En la estadística enterrado.
Pasemos a la noticia el día,
Manu Sánchez ¡Deportes!
Sí, el país está totalmente conmocionado,
Ronaldo se ha lesionado.
Hay muchas maneras de matar,
Y una de ellas es el silencio,
Hoy has vuelto a callar,
Y son más de mil los obreros muertos.
¡Muertos!
Hoy has vuelto a sentir,
La impotencia y el sufrimiento,
Hoy has vuelto a escuchar,
Los gritos del silencio.
Todo o trecho em itálico, no início da letra, pertence a uma canção anarquista de 1905 ("La verbena Anarquista"), e simula um diálogo entre uma mulher e um homem anarquista. Por sua vez, a música anarquista pode ser encontrada no disco Marchas y Canciones de Lucha de los Obreros Anarquistas Argentinos 1904-1936.
sexta-feira, 18 de março de 2011
nu-sol: Ciclo de filmes "Justiça e Política"
O Nu-Sol promove no auditório Paulo Freiro do TUCA (teatro da PUC-SP) o ciclo de filmes "Justiça e Política".
Endereço: TUCA – Teatro da PUC-SP (Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes)
O nu-sol, na hypomnemata de janeiro, publicou o belo texto "Ardor". Recomendo a leitura.
Segue abaixo o cartaz do ciclo de filmes:
Endereço: TUCA – Teatro da PUC-SP (Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes)
O nu-sol, na hypomnemata de janeiro, publicou o belo texto "Ardor". Recomendo a leitura.
Segue abaixo o cartaz do ciclo de filmes:
Cineclube Terra Livre - Mostra Películas Negras: 1ª Sessão "Cinema do Povo"
Como já divulgado anteriormente, domingo (20/03) começa a Mostra Películas Negras, promovida pela Biblioteca Terra Livre com a colaboração do Centro Cineclubista de São Paulo. Para a estréia, a programação inclui várias películas produzidas pelo grupo anarquista Cinema do Povo durante a década de 10 do século passado.
Maiores informações: http://bibliotecaterralivre.wordpress.com/
Abaixo, os cartazes da sessão e da mostra:
Maiores informações: http://bibliotecaterralivre.wordpress.com/
Abaixo, os cartazes da sessão e da mostra:
segunda-feira, 7 de março de 2011
Escritores Libertários
Texto escrito por Ideal Peres, publicado em Letra Livre n.8, de agosto de 1995, e retirado de http://www.nodo50.org/insurgentes/textos/brasil/07escritoreslibert.htm
Em diferentes épocas escritores brasileiros estiveram envolvidos com o anarquismo. Alguns com participação ativa; outros através de seus escritos e, finalmente, os que adotaram posição individualista.
Relembramos Afonso Schmidt, na juventude participante das redações dos jornais libertários. Deixou obra no gênero poesia, teatro, romance, contos. Harmonia é um dos contos literalmente anarquista e, também, o romance Colônia Cecília, em que misturando ficção e realidade provocou enorme desinformação, só recentemente sanada através de pesquisas históricas. Assinalamos o Dr. Fábio Luz, colaborador assíduo da imprensa libertária, introdutor do "romance social" em nossas terras com o livro Ideólogo. Produziu uma série de romances, peças de teatro, estudos científicos e pedagógicos. Maria Lacerda de Moura, injustamente esquecida, competente antifacista de primeira hora, divulgou teses sobre o amor livre e a liberação feminina, que tantos arrepios e indignação provocaram no Brasil vetusto e cavernoso dos anos 30. Dr. Martins Fontes, santista, poeta parnasiano, deixou entre sua enorme produção poética, inúmeras de conteúdo libertário, sem falar em suas conferências assinaladas no livro Fantástica, do qual destacamos a sobre Kropotkin. José Oiticica, figura de proa do movimento anarco-sindicalista, polemista destroçador, inigualável nos escritos satíricos e nas cartas abertas dirigidas aos figurões e manda-chuvas da época, deixou infindável produção de escritos políticos dispersos nos jornais diários do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, citamos Avelino Foscolo, colaborador da imprensa libertária, escreveu vários romances como O Mestiço, Vulcões, A Capital e que só recentemente estão sendo reeditados.
Todos os mencionados mereceram pouquíssimo ou nenhum reconhecimento pela literatura oficial. Entretanto há duas excessões: Campos de Carvalho e Lima Barreto. Em entrevista ao jornal O Globo, em 08/04/95, respondendo a pergunta sobre o vigor libertário de seus livros, onde seus personagens sempre se voltam contra alguma autoridade, afirmou: "Eu sempre fui anarquista, liberto de qualquer dogma". Sabemos que Campos de Carvalho foi, durante sua juventude, colaborador dos jornais libertários A Plebe e A Lanterna. Hoje, reconhecido como escritor importante, teve romances renovadores como A lua vem da Ásia, A vaca do nariz sutil e A chuva imóvel, reeditados pela Editora José Olimpio. Campos de Carvalho é anarquista individualista (Nota do Libera...: Campos de Carvalho faleceu em São Paulo no dia 10 de abril de 1998, aos 82 anos).
Lima Barreto teve seus méritos reconhecidos, porém só depois de seus falecimento. É dele que vamos nos ocupar mais extensamente.
Lima Barreto, anarquista
Afonso Henriques de Lima Barreto, autor genial de Clara dos Anjos, Recordações de Isaías Caminha, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, etc., mulato de temperamento tímido, porém irreverente e desabusado em seus escritos. Em geral trajava roupas amarfanhadas, sapatos empoeirados, garofinha a subir indiscreta pelas orelhas e colarinho encardido. Palheta equilibrada no alto da cabeça. Corpo exalando azedume do suor curtido nos subúrbios proletários onde sem opção habitava.
Freqüentador contumaz de tendinhas encardidas, se afogava em pinga com Fernet, na tentativa de fugir da grande tragédia da sua existência: o pai doido, a miséria em que a duras penas sobrevivia, a cor, a indiferença social, a impossibilidade de mobilizar seu potencial criativo.
Certa feita, advertido de que a cachaça era prejudicial a literatura, replicou que o único prejuízo era a burrice.
Reprovado por três vezes por Licínio Cardoso na cadeira de Mecânica Racional, abandona os estudos de engenharia e efetua concurso para burocrata do Ministério da Guerra. Nessa repartição encontra Domingos Ribeiro Filho, anarquista declarado, atuante nos meios libertários e que o teria influenciado teoricamente.
O movimento anarco-sindicalista começa a crescer. E, 1906 realiza-se o 10 Congresso Operário Brasileiro, no Rio de Janeiro. Com o grupo de intelectuais anarquistas, entre os quais Domingos Ribeiro, Fábio Luz, Curvelo de Mendonça, Elísio de Carvalho, Lima Barreto lança a revista Floreal, de curta existência. Em 1913 é realizado o 20 Congresso Operário Brasileiro, que mobiliza o escritor. Em Lima Barreto, sob a carapaça de solitário, tímido, introvertido, subsistia um espírito fino, alma sensível, inteligência desperta, vigoroso talento pronto para explodir no combate as injustiças sociais, aos desmandos da polícia e a exploração dos poderosos. E isto o fez aderir de vez aos ideais anarquistas.
A partir do ano de 1914 crescem as lutas operárias e, conseqüentemente, a repressão policial. Levas de anarquistas são presos e atirados como fardos em navios para a Europa. Lima Barreto coloca resolutamente sua pena a favor dos oprimidos, proletários e anarco-sindicalistas.
Trilhando as posições libertárias zurze feroz a guerra, o militarismo, a opressão social, o patriotismo, a papuchada político-partidária, o serviço militar obrigatório, o nacionalismo.
Troça do falso feminismo, chá com torradas das elites endinheiradas, sequiosas de se igualarem aos homens nos seus piores vícios.
Dardejou o ópio do futebol, o tráfico de influências, os poderosos do momento, o imperialismo, a falta de caráter nacional.
Compreendendo precocemente que a linguagem e a gramática se tornam instrumentos da opressão e dominação de classes, investiu decidido contra os retóricos tipo Rui Barbosa, parnasianos e simbolistas cultuadores de uma língua que impedia a expressão da vida real.
Das centenas de páginas de seus romances, fufam em turbilhão seus personagens simples, toscos, suburbanos, talhados vigorosamente por sua escrita rústica, direta, oxigenante, libertadora.
As publicações libertárias da época, A Voz do Trabalhador, A Patuléia, A Plebe, A Lanterna, O Debate, sem falar das revistas e dos jornais diários, estão recheados de suas crônicas nos mais de vinte pseudônimos com os quais firmou sua posição anarquista.
Alguns escribas marxistas de visão estrábica se entusiasmaram com a defesa da revolução Russa feita por Lima Barreto. A esses partidários do "socialismo camisa de força", entretanto, diremos que todo libertário a defendeu inicialmente, por se tratar de tentativa de transformação social, feita pelo povo sem as diretrizes ditatoriais que posteriormente tomou.
Quanto ao maximalismo que defendeu, era, nada menos, que a interpretação anarquista da derrubada de um regime despótico e a instalação da autogestão generalizada. Para comprovação é suficiente ler o que escrevia na época.
Quando da grande greve de 1917, em São Paulo, novamente sai Lima Barreto em defesa dos anarquistas presos e deportados, após cessado o movimento.
Em novembro de 1918 explode no Rio um movimento que visava a derrubada das instituições e o estabelecimento de um regime socialista. A rebelião fracassa e centenas de anarquistas são presos e processados. Lima Barreto novamente se coloca em defesa dos revolucionários atacando violentamente o chefe de polícia Aurelino Leal, a quem acoima de "Trepoff barbante". O escritor estava, naquele momento, internado em um hospital.
Lima Barreto não foi orador de comício, agitador de assembléias, organizador de greves, conspirador de movimentos visando derrubadas de autoridades, freqüentador de grupos operários e sindicatos; porém, através de sua pena esteve coerentemente com o movimento anarco-sindicalista e sempre com ele.
Ideal Peres
Em diferentes épocas escritores brasileiros estiveram envolvidos com o anarquismo. Alguns com participação ativa; outros através de seus escritos e, finalmente, os que adotaram posição individualista.
Relembramos Afonso Schmidt, na juventude participante das redações dos jornais libertários. Deixou obra no gênero poesia, teatro, romance, contos. Harmonia é um dos contos literalmente anarquista e, também, o romance Colônia Cecília, em que misturando ficção e realidade provocou enorme desinformação, só recentemente sanada através de pesquisas históricas. Assinalamos o Dr. Fábio Luz, colaborador assíduo da imprensa libertária, introdutor do "romance social" em nossas terras com o livro Ideólogo. Produziu uma série de romances, peças de teatro, estudos científicos e pedagógicos. Maria Lacerda de Moura, injustamente esquecida, competente antifacista de primeira hora, divulgou teses sobre o amor livre e a liberação feminina, que tantos arrepios e indignação provocaram no Brasil vetusto e cavernoso dos anos 30. Dr. Martins Fontes, santista, poeta parnasiano, deixou entre sua enorme produção poética, inúmeras de conteúdo libertário, sem falar em suas conferências assinaladas no livro Fantástica, do qual destacamos a sobre Kropotkin. José Oiticica, figura de proa do movimento anarco-sindicalista, polemista destroçador, inigualável nos escritos satíricos e nas cartas abertas dirigidas aos figurões e manda-chuvas da época, deixou infindável produção de escritos políticos dispersos nos jornais diários do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, citamos Avelino Foscolo, colaborador da imprensa libertária, escreveu vários romances como O Mestiço, Vulcões, A Capital e que só recentemente estão sendo reeditados.
Todos os mencionados mereceram pouquíssimo ou nenhum reconhecimento pela literatura oficial. Entretanto há duas excessões: Campos de Carvalho e Lima Barreto. Em entrevista ao jornal O Globo, em 08/04/95, respondendo a pergunta sobre o vigor libertário de seus livros, onde seus personagens sempre se voltam contra alguma autoridade, afirmou: "Eu sempre fui anarquista, liberto de qualquer dogma". Sabemos que Campos de Carvalho foi, durante sua juventude, colaborador dos jornais libertários A Plebe e A Lanterna. Hoje, reconhecido como escritor importante, teve romances renovadores como A lua vem da Ásia, A vaca do nariz sutil e A chuva imóvel, reeditados pela Editora José Olimpio. Campos de Carvalho é anarquista individualista (Nota do Libera...: Campos de Carvalho faleceu em São Paulo no dia 10 de abril de 1998, aos 82 anos).
Lima Barreto teve seus méritos reconhecidos, porém só depois de seus falecimento. É dele que vamos nos ocupar mais extensamente.
Lima Barreto, anarquista
Afonso Henriques de Lima Barreto, autor genial de Clara dos Anjos, Recordações de Isaías Caminha, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, etc., mulato de temperamento tímido, porém irreverente e desabusado em seus escritos. Em geral trajava roupas amarfanhadas, sapatos empoeirados, garofinha a subir indiscreta pelas orelhas e colarinho encardido. Palheta equilibrada no alto da cabeça. Corpo exalando azedume do suor curtido nos subúrbios proletários onde sem opção habitava.
Freqüentador contumaz de tendinhas encardidas, se afogava em pinga com Fernet, na tentativa de fugir da grande tragédia da sua existência: o pai doido, a miséria em que a duras penas sobrevivia, a cor, a indiferença social, a impossibilidade de mobilizar seu potencial criativo.
Certa feita, advertido de que a cachaça era prejudicial a literatura, replicou que o único prejuízo era a burrice.
Reprovado por três vezes por Licínio Cardoso na cadeira de Mecânica Racional, abandona os estudos de engenharia e efetua concurso para burocrata do Ministério da Guerra. Nessa repartição encontra Domingos Ribeiro Filho, anarquista declarado, atuante nos meios libertários e que o teria influenciado teoricamente.
O movimento anarco-sindicalista começa a crescer. E, 1906 realiza-se o 10 Congresso Operário Brasileiro, no Rio de Janeiro. Com o grupo de intelectuais anarquistas, entre os quais Domingos Ribeiro, Fábio Luz, Curvelo de Mendonça, Elísio de Carvalho, Lima Barreto lança a revista Floreal, de curta existência. Em 1913 é realizado o 20 Congresso Operário Brasileiro, que mobiliza o escritor. Em Lima Barreto, sob a carapaça de solitário, tímido, introvertido, subsistia um espírito fino, alma sensível, inteligência desperta, vigoroso talento pronto para explodir no combate as injustiças sociais, aos desmandos da polícia e a exploração dos poderosos. E isto o fez aderir de vez aos ideais anarquistas.
A partir do ano de 1914 crescem as lutas operárias e, conseqüentemente, a repressão policial. Levas de anarquistas são presos e atirados como fardos em navios para a Europa. Lima Barreto coloca resolutamente sua pena a favor dos oprimidos, proletários e anarco-sindicalistas.
Trilhando as posições libertárias zurze feroz a guerra, o militarismo, a opressão social, o patriotismo, a papuchada político-partidária, o serviço militar obrigatório, o nacionalismo.
Troça do falso feminismo, chá com torradas das elites endinheiradas, sequiosas de se igualarem aos homens nos seus piores vícios.
Dardejou o ópio do futebol, o tráfico de influências, os poderosos do momento, o imperialismo, a falta de caráter nacional.
Compreendendo precocemente que a linguagem e a gramática se tornam instrumentos da opressão e dominação de classes, investiu decidido contra os retóricos tipo Rui Barbosa, parnasianos e simbolistas cultuadores de uma língua que impedia a expressão da vida real.
Das centenas de páginas de seus romances, fufam em turbilhão seus personagens simples, toscos, suburbanos, talhados vigorosamente por sua escrita rústica, direta, oxigenante, libertadora.
As publicações libertárias da época, A Voz do Trabalhador, A Patuléia, A Plebe, A Lanterna, O Debate, sem falar das revistas e dos jornais diários, estão recheados de suas crônicas nos mais de vinte pseudônimos com os quais firmou sua posição anarquista.
Alguns escribas marxistas de visão estrábica se entusiasmaram com a defesa da revolução Russa feita por Lima Barreto. A esses partidários do "socialismo camisa de força", entretanto, diremos que todo libertário a defendeu inicialmente, por se tratar de tentativa de transformação social, feita pelo povo sem as diretrizes ditatoriais que posteriormente tomou.
Quanto ao maximalismo que defendeu, era, nada menos, que a interpretação anarquista da derrubada de um regime despótico e a instalação da autogestão generalizada. Para comprovação é suficiente ler o que escrevia na época.
Quando da grande greve de 1917, em São Paulo, novamente sai Lima Barreto em defesa dos anarquistas presos e deportados, após cessado o movimento.
Em novembro de 1918 explode no Rio um movimento que visava a derrubada das instituições e o estabelecimento de um regime socialista. A rebelião fracassa e centenas de anarquistas são presos e processados. Lima Barreto novamente se coloca em defesa dos revolucionários atacando violentamente o chefe de polícia Aurelino Leal, a quem acoima de "Trepoff barbante". O escritor estava, naquele momento, internado em um hospital.
Lima Barreto não foi orador de comício, agitador de assembléias, organizador de greves, conspirador de movimentos visando derrubadas de autoridades, freqüentador de grupos operários e sindicatos; porém, através de sua pena esteve coerentemente com o movimento anarco-sindicalista e sempre com ele.
Ideal Peres
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Proudhon e o romantismo
Texto de Francisco Trindade reproduzido em seu blog, a respeito da relação de Pierre-Joseph Proudhon com o romantismo e seus artistas e filósofos
Como homem do século XIX que ele foi, avançando mesmo nos assuntos, P.-J.Proudhon opõe-se portanto, constantemente ao grande impulso estético e ético da sua geração: o romantismo. Pode-se mesmo dizer que ele foi o mais consequente dos anti-românticos. Não seguros da rejeição da novidade, mas pelo nome das convicções que inspiraram toda a sua vida. Na origem, do romantismo – pelo menos em França – há um regresso nostálgico para com o passado, provocado pelo terrível choque do período revolucionário. Pelo contrário, levando em conta a Revolução que ele quis conduzir a seu termo, Proudhon está inteiramente orientado para o futuro.
Essencialmente racionalista, ele nunca recusou a sua dívida perante as Luzes. Não obstante, ou pela causa, de uma educação recebida no clima clérical da Restauração, os seus gostos literários levaram-no à admiração dos clássicos latinos, gregos e franceses. Entre os escrivãos do século XVIII, a sua principal admiração vai para Diderot. “ o mais vasto génio dos tempos modernos” (Justiça, III-85 ). E também, Voltaire surpreendê-lo-à talvez mais, que ele qualifica de “incomparável” ( Cor. VII-194 ). São bem menos pré-românticos.
Subindo mais alto, Proudhon sempre fez as suas delícias de Rabelais, modelo aos seus olhos do espírito francês ( cf. Nomeadamente Justiça, III-328 ). Confiantes no estudo mais perfeito, mostrava que ele não foi insensível às obras de inspiração bem diferentes, nomeadamente as de Shakespeare ( Cor., VII-25 ), Goethe e Schiller ( Cor. VI, 109-110 ) para não citar quais. Mas, quanto ao essencial, a sua preferência está sempre ligada à clareza de pensamento e ao rigor da língua. De uma forma geral na predominância da ideia elaborada sobre a sensação pura.
Ao longo dos seus anos de formação – entre 1820-1830 – não se conheciam ainda outros “românticos” franceses para além de Rousseau, o percursor e Chateaubriand, o anunciador. Defronte do primeiro, Proudhon aprovou os sentimentos de sedução e de repulsão, que são todos salvo os de indiferença: nós vamos lá voltar. Quanto ao autor do Génio do cristianismo, grande revelação literária da época da sua juventude, ele só tem desprezo por “este fraseador sem consciência” ( Justiça, II-380 ), modelo segundo ele, dos reitores lacrimosos e crentes que ele abomina ( as Memórias de Além-túmulo eram-lhe então, e por consequência, desconhecidas: elas parecem ficar conservadas ).
Agitando-se na obra de Jean-Jacques – que não se saberia ter à priori como “passéiste” – Proudhon frequentou bastante pelo contrário, ao ponto que os primeiros escritos fossem impregnados. Muitos dos aspectos reaproximam os dois homens: a origem plebeia, a raiva dos privilégios e a depravação mundana, o anti-conformismo quase selvagem. Mas o que, muito cedo, persegue Proudhon, é o facto que muitos terroristas tinham sido embuidos pelo Contrato Social. Pode-se dizer que, quando ele começa a escrever, é grande parte a partir das questões que lhe colocam, nomeadamente um Robespierre, a degenerência do igualitarismo da humanidade.
Muito cedo, Proudhon descobre que a raiva rousseautista da sociedade tem como origem uma exaltação furiosa do sentimento individual, na qual a infabilidade é oposta aos enfranquecimentos da razão. É isto a origem da desconfiança, para não dizer da quezília dos filósofos perante o seu associado inquietante.
Nada é mais estranho também a Proudhon do que esta espécie de misticismo vago, que se inocenta em todas as boas intenções: “dele”, exclama ele, ( vêem ) por linhas direitas todo o romantismo” ( Cadernos, III, 292 ). Bem mais tarde, recebendo o termo da La Boétie, ele o qualificará desdenhosamente de “femmelin” ( Justiça, IV-216 ). Os seus múltiplos regulamentos de conta com aquele que ele tinha admirado por um tempo, regressando à volta deste tema. Resumi-lo-emos, para fazer depressa este julgamento sem apelo: “… esta cabeça rachada não é francesa… é nele que começam o nosso romantismo e a nossa democracia absurda” ( Príncipio de Arte, 139 ). “Absurda” aqui reduz a acção política a uma efusão e o sufrágio a uma soma, como só se veio a ver muito em 48.
Tão diferente que ele seja na aparência de Rousseau, é este mesmo romantismo – no sentido alargado – que triunfará alguns anos mais tarde celebrando a tradição contra a inovação, reconstruindo uma Idade Média de ficção e referindo-se a um “génio” ancestral que dirigia as sociedades sem que elas tivessem consciência, produzindo os mestres de obra quase na ignorância dos seus autores.
Iludidos pelos desmentidos ulteriores de tantos escrivãos desta geração, nós temos a tendência para esquecer que, na sua juventude, eles eram reclamados daquilo que não podemos chamar de outro modo de”reacção”. Admirador de Napoleão, Chateaubriand foi em seguida o legitimista/apaixonado que se conhece. A passagem brutal do ultramontanismo para o socialismo é flagrante junto de Lamennais. Antes de celebrar a bandeira tricolor, Lamartine era um grande conservador vulgar. E Hugo, ele próprio, chamado para ser um profeta inspirado da esquerda, foi na sua juventude o zelado - e retribuído – defensor da monarquia restaurada, nomeado par de França em reconhecimento das suas adulações.
Proudhon, não o ignora nunca e não é o único. O socialismo nascente, que se associa sempre dos nossos dias ao romantismo, está tido na clareza destes literários, aristocratas antigos ou de longa data, onde as revoltas de fachada apanham mal a submissão na ordem estabelecida e após as ambições pessoais. O pequeno mundo dos cenéculos parisienses não tem nada em comum com os sofrimentos dos trabalhadores, mesmo quando ele difunde sobre as lágrimas de convenção.
Certamente, há excepções, pelo menos vistas do exterior. Por exemplo Georges Sand. Ei! falamos se Proudhon detesta os “femmelins”, sabe-se que ela é a sua concepção do papel das mulheres na sociedade. Uma mulher-autora, tendo deixado o seu marido e, mais, vivendo tudo como um homem, só podia arrepiar. Eu não lembraria um detalhe, pensando que nada aqui as ignora, os sarcasmos pouco galantes contra Georges Sand, que se encontra em inúmeras reconquistas sob a sua pena. Um dos escritos póstumos, publicado pelo estado onde ele foi encontrado ( A Pornocracia ) está quase inteiramente consagrado naquela querela, largamente prescrevida, e´preciso dizê-lo.
Além da polémica pessoal, permanece a adequação estricta estabelecida entre a moral e a revolução. A base do proudhonismo é recusar toda a diferença entre o que é dito e o que é feito. Eis o seu décimo, e não o meio, perante o romantismo e os românticos: eles são ( ou seriam ) substancialmente imorais. É uma consequência fatal do seu irracionalismo, segundo o autor da Justiça. A Srª Sand pode bem namoriscar com os socialistas, se ela não vive segundo o socialismo, ela não tem nada de socialista. A consequência o confirmará, pelo menos em parte.
Sobre este ponto fulcral, é preciso ainda remontar a Rousseau. Não somente a sua vida foi um contra-exemplo mas é para ele que remonta, sempre a mesma monstruosa hipertrofia do ego, a decadência dos costumes que segundo Proudhon caracteriza o século. Eis o seu diagnóstico deste assunto: “Héloise revelou o amor e o casamento… mas ela tem também preparada a dissolução: da publicação deste romance data para o nosso país o enfranquecimento das almas pelo amor, o enfranquecimento que devia seguir de perto uma fria e sombria desonestidade” ( Justiça, IV, 218 ).
Depreciador do amor-paixão – no qual ele diz: “O amor, eu não o amo” ( Justiça, IV-275 ) – Proudhon é antes demais o adversário desta “fraternidade” que vários socialistas, vencidos pelo sentimentalismo ambiente, colocando quase abaixo da liberdade e da igualdade.
Reminiscência ou substituto de uma religião adulterada, esta vaga aspiração à concórdia social só pode terminar nos piores enganos. Se a sociedade não está fundada sobre a Justiça, poder-se-à abraçar ao que melhor isso acabará sempre com os dramas.
Mesmo que a maioria dos socialistas cedam à moda, são feitos os defensores da união livre e do maltusianismo, mesmo daqueles que não juram que a mão sobre o coração, esperando sobre a sua própria generosidade, estão mais perto de beijar Lamounette do que das duras exigências da revolução a fazer.
Quanto ao romantismo político, Proudhon não lhe é menos hóstil, embora partilhando algumas das suas aspirações. Segundo ele, inflamar-se inconsideravelmente para a liberdade dos povos, é expôr a Europa ao dilaceramento, se não se propõe como questão desta liberação que uma ostentação de Estados soberanos seguindo o modelo do jacobinismo. Os Mazzini, os Kosbuth e os seus epígonos defendem uma causa justa com meios que se revoltam contra ela.
Antes da “Primavera dos povos” e nos anos que se seguiram, a polémica proudhoniana abunda nas palavras fustigantes perante estes nacionalistas do sentimento. No grande escândalo do partido republicano, o anarquista da Ideia geral da Revolução virá defender o equilíbrio dos tratados de 1815 contra os apóstolos da unidade italiana ou do pangermanismo. É a origem do seu federalismo, que se esforça para conciliar a exigência de autonomia com a necessidade de unidade. Sem estar com rodeios no assunto, este capítulo levava-nos muito longe.
Chegamos à arte, depois do total domínio real do romantismo. Fazendo da arte uma realização do ideal na sociedade, Proudhon recusa o lugar preponderante assinado no “foro sagrado”, na “inspiração” do criador. Ele não acredita neste divino respirar que divinizaria aquele que é favorizado e, colocam à parte outros humanos, conferindo-lhes todos os direitos.
A concepção proudhoniana da arte não se separa dos seus objectivos de trabalho no geral, já que para ele a obra artística só é uma das modalidades de acção humana sobre a matéria. O absolutismo artístico é também falso como todos os outros: os que proclamam o contrário acabarão em tiranos de arte, não menos perigosos que os tiranos políticos.
De uma certa maneira, todos os homens são artistas ou podem vir a sê-lo. Há tanta beleza na produção utilitária do que nas obras ditas artísticas: “Tal operário dispensa mais o espírito do que em ferrar um cavalo que tal folhetinista escreveu uma nova”. Ou ainda: “São precisas cem vezes mais inteligência para construir uma máquina a vapor que para escrever cem capítulos de Bálsamo; e tal patrão do Reno que não sabe ler dispensa mais do espírito fazendo um curso, que não há em todas as orientações ( Ideias revolucionárias, ed. De 1849, p. 48 ). Depois disso não se admira que Proudhon tivesse sido tido como um abominável filistino como grande parte dos bons espíritos da sua época.
Não é que ele despreze a arte, longe disso. Pelo contrário, o lugar que lhe é atribuído na história humana no geral e mais particularmente na sociedade futura é de toda a primeira importância como será ele aliás já que “a arte é mesmo a liberdade” ( Justiça, III-583 ), então o primeiro objectivo assinado na Revolução é a abolição de toda a servidão? Mas a arte não jogará plenamente seu papel já que ele está subordinado ao perfeccionismo de todos, e não reservado à glória vã de alguns. Na grande querela que ele ocupou no século, Proudhon tem vigorosamente condenado o sofismo da “arte pela arte”: “A arte pela arte (…) não descança sobre nada, não é nada” ( Príncipio de Arte, p. 70 ). Pelo contrário, ele toma decididamente partido a favor da “arte social”.
Apesar dos mal-entendidos terem circulado e circulam ainda nesta questão. A fórmula, quase tantológica da “arte social” não significa em nada que os criadores devem ser os propagandistas de uma forma particular da sociedade. O modelo proudhoniano não é o “grande” século, ainda menos o futuro “realismo socialista”. O que ele quer dizer é que a arte, como toda a produção humana, inscreve-se no conjunto do corpo social, onde ele exprime as aspirações e os sofrimentos, as cóleras e as esperanças. Todos são chamados para lá participar, quer seja como criadores ou como consumidores, distinção além de largamente formal.
“A arte é solidária da ciência e da Justiça: ele eleva-se com elas e desce ao mesmo tempo” ( Justiça, III-584 ). Os românticos afirmaram-se certamente que eles eram a voz da multidão e o eco do seu tempo. Como é que um artista digno deste nome poderia pensar o contrário? Mas a concepção do artista-demiurgo, a reivindicação de uma total independência, não seguros perante o poder estabelecido mas da sociedade, a pretensão aos direitos sem limites do génio, inscreviam-se falsamente contra esta reivindicação, tão sincera que ela tinha sido. Sem falar das infatuações mais medíocres e os interesses mercantis nos quais as grandes palavras de autonomia da criação, da soberania do artista e a religião da arte forneceram mais um alibi. Se a arte não tem como objectivo a delecção de alguns e a satisfação da vontade do poder do artista (ou pretendido), é uma mensagem, que contribui para dissolver o laço social pelo laço de criar.
Assim a hostilidade de Proudon aos olhos das teorias românticas, e o seu pouco gosto pela grande parte das obras que se reclamam, só puderam colocá-lo na margem dos literários do seu tempo. Inúmeros entre eles, particularmente todos os que se espalhavam pela pequena imprensa, não lhe ameaçaram os seus sarcasmos, à excepção dos limites da boa fé.
Mesmo os grandes ignoraram este Caliban filosófico, tão elogiado as suas concepções da sua linguagem e das formas de viver. Proudhon nota mesmo, por outro lado, que ele frequentou muito pouco dos seus contemporâneos. Quer estes o tenham desprezado, quer ele os tenha desprezado. Ele tem geralmente as palavras duras, injustas, para o pequeno mundo dos homens de letras que lhe é chegado a bordejar, em particular no jornalismo: “Para mim, eu vi pouco da vida destes boémias literárias, destas pinturas de amor e de virtude; eu conheço também um pouco as receitas do estilo, e eu não sou nada levado em fingimentos de J.-J. ( Rousseau ) do que dos de Balzac, J. Janin, Nodier e participantes (…) Este mundo arrasta-se, em virtude da faculdade literária, o privilégio do vício, da indelicadeza, da traição, da hipocrisia, e mesmo da intolerância: estes são os seres depravados que se idolatram, por algumas páginas em miniatura, onde se encontra a figura de algo de bom e honesto sentimentos. (…) …eu odeio estes homens, eu digo-lo sem…” ( Cadernos, III-291, 292 ).
Entre os escrivãos notórios do seu tempo, Michelet é um dos raros que Proudhon tinha frequentado um pouco, aliás, tardiamente e de forma um pouco compassada: os seus bens são tratados.
Pouco rancorosa, a boa Srª Sand desejou vê-lo, apesar de ele estar em Sainte-Pèlaige. Mas o prisioneiro recusa esta oferta. Em termos aliás, fortemente afáveis já que ele assegura aquele que ele era e será o objecto de tantos golpes vindo dele, da sua “vida e sincera admiração” ( Carta de 30 Janeiro de 1852, Fonds Sand da Bibl. Hist. da Cidade de Paris, Nº G 5244 ).
Na mesma época, e pelo mesmo motivo, Proudhon recebe também a visita de Victor Hugo, vindo para ver o seu filho Charles incarcerado no mesmo lugar. Este reencontro, certamente o último entre os dois homens é assim relatado nos Cadernos: “Eu recebi a visita do poeta Victor Hugo. Conversa bastante longa. V. Hugo é revolucionário desde os 30 anos. Ele crê que a fraternidade somente pode resolver a questão social” ( Cadernos, IV-294 ).
Nota-se o acento sarcástico sempre colocado sobre a palavra de fraternidade, e o tom geralmente condescendente desta breve anotação. Portanto, ainda que ele pinte o homem com uma miserável apreciação Proudhon tinha uma certa admiração para a obra de Hugo e, desde a monarquia de Julho, seguia com alguma curiosidade os progressos da sua orientação para com uma espécie de socialismo.
Eles tinham dado conhecimento logo quando, eleitos sobre a mesma lista complementar do Sena, eles tinham um e outro representantes do povo em 49. Os bens pareciam ter sido então sobretudo frios. De seguida um reencontro fortuito, o mesmo dia do golpe de Estado de 2 Dezembro, é relatado de forma sobretudo malévola por Hugo: ele insinua que a permissão obtida pelo prisioneiro precisamente nesta data, é devido a uma complacência significativa do poder que se colocava no lugar. A página termina assim: “Nós nos deixamos. Ele enterra-se no ombro, eu nunca mais o vi” ( História de um crime ). Nós sabemos que ele teve uma última conversa, sem dúvida depois a redacção deste texto.
Esta ruptura seca, sobre uma incompreensão recíproca, resumo e definitivo bastante bem os benefícios de Proudhon com os românticos. Da parte destes últimos uma missa à distância um pouco espantada, quando isso não foi uma ignorância condescendente. Do lado de Proudhon, a certeza que ele tinha num outro mundo e dirigia-se algures, que ele não tinha nada de comum com os literários. Atitude aos olhos do romantismo que se resume nesta interrogação, que é ao mesmo tempo uma resposta: “Temos necessidade do mal?” ( Justiça, I-261 ).
Francisco Trindade
Como homem do século XIX que ele foi, avançando mesmo nos assuntos, P.-J.Proudhon opõe-se portanto, constantemente ao grande impulso estético e ético da sua geração: o romantismo. Pode-se mesmo dizer que ele foi o mais consequente dos anti-românticos. Não seguros da rejeição da novidade, mas pelo nome das convicções que inspiraram toda a sua vida. Na origem, do romantismo – pelo menos em França – há um regresso nostálgico para com o passado, provocado pelo terrível choque do período revolucionário. Pelo contrário, levando em conta a Revolução que ele quis conduzir a seu termo, Proudhon está inteiramente orientado para o futuro.
Essencialmente racionalista, ele nunca recusou a sua dívida perante as Luzes. Não obstante, ou pela causa, de uma educação recebida no clima clérical da Restauração, os seus gostos literários levaram-no à admiração dos clássicos latinos, gregos e franceses. Entre os escrivãos do século XVIII, a sua principal admiração vai para Diderot. “ o mais vasto génio dos tempos modernos” (Justiça, III-85 ). E também, Voltaire surpreendê-lo-à talvez mais, que ele qualifica de “incomparável” ( Cor. VII-194 ). São bem menos pré-românticos.
Subindo mais alto, Proudhon sempre fez as suas delícias de Rabelais, modelo aos seus olhos do espírito francês ( cf. Nomeadamente Justiça, III-328 ). Confiantes no estudo mais perfeito, mostrava que ele não foi insensível às obras de inspiração bem diferentes, nomeadamente as de Shakespeare ( Cor., VII-25 ), Goethe e Schiller ( Cor. VI, 109-110 ) para não citar quais. Mas, quanto ao essencial, a sua preferência está sempre ligada à clareza de pensamento e ao rigor da língua. De uma forma geral na predominância da ideia elaborada sobre a sensação pura.
Ao longo dos seus anos de formação – entre 1820-1830 – não se conheciam ainda outros “românticos” franceses para além de Rousseau, o percursor e Chateaubriand, o anunciador. Defronte do primeiro, Proudhon aprovou os sentimentos de sedução e de repulsão, que são todos salvo os de indiferença: nós vamos lá voltar. Quanto ao autor do Génio do cristianismo, grande revelação literária da época da sua juventude, ele só tem desprezo por “este fraseador sem consciência” ( Justiça, II-380 ), modelo segundo ele, dos reitores lacrimosos e crentes que ele abomina ( as Memórias de Além-túmulo eram-lhe então, e por consequência, desconhecidas: elas parecem ficar conservadas ).
Agitando-se na obra de Jean-Jacques – que não se saberia ter à priori como “passéiste” – Proudhon frequentou bastante pelo contrário, ao ponto que os primeiros escritos fossem impregnados. Muitos dos aspectos reaproximam os dois homens: a origem plebeia, a raiva dos privilégios e a depravação mundana, o anti-conformismo quase selvagem. Mas o que, muito cedo, persegue Proudhon, é o facto que muitos terroristas tinham sido embuidos pelo Contrato Social. Pode-se dizer que, quando ele começa a escrever, é grande parte a partir das questões que lhe colocam, nomeadamente um Robespierre, a degenerência do igualitarismo da humanidade.
Muito cedo, Proudhon descobre que a raiva rousseautista da sociedade tem como origem uma exaltação furiosa do sentimento individual, na qual a infabilidade é oposta aos enfranquecimentos da razão. É isto a origem da desconfiança, para não dizer da quezília dos filósofos perante o seu associado inquietante.
Nada é mais estranho também a Proudhon do que esta espécie de misticismo vago, que se inocenta em todas as boas intenções: “dele”, exclama ele, ( vêem ) por linhas direitas todo o romantismo” ( Cadernos, III, 292 ). Bem mais tarde, recebendo o termo da La Boétie, ele o qualificará desdenhosamente de “femmelin” ( Justiça, IV-216 ). Os seus múltiplos regulamentos de conta com aquele que ele tinha admirado por um tempo, regressando à volta deste tema. Resumi-lo-emos, para fazer depressa este julgamento sem apelo: “… esta cabeça rachada não é francesa… é nele que começam o nosso romantismo e a nossa democracia absurda” ( Príncipio de Arte, 139 ). “Absurda” aqui reduz a acção política a uma efusão e o sufrágio a uma soma, como só se veio a ver muito em 48.
Tão diferente que ele seja na aparência de Rousseau, é este mesmo romantismo – no sentido alargado – que triunfará alguns anos mais tarde celebrando a tradição contra a inovação, reconstruindo uma Idade Média de ficção e referindo-se a um “génio” ancestral que dirigia as sociedades sem que elas tivessem consciência, produzindo os mestres de obra quase na ignorância dos seus autores.
Iludidos pelos desmentidos ulteriores de tantos escrivãos desta geração, nós temos a tendência para esquecer que, na sua juventude, eles eram reclamados daquilo que não podemos chamar de outro modo de”reacção”. Admirador de Napoleão, Chateaubriand foi em seguida o legitimista/apaixonado que se conhece. A passagem brutal do ultramontanismo para o socialismo é flagrante junto de Lamennais. Antes de celebrar a bandeira tricolor, Lamartine era um grande conservador vulgar. E Hugo, ele próprio, chamado para ser um profeta inspirado da esquerda, foi na sua juventude o zelado - e retribuído – defensor da monarquia restaurada, nomeado par de França em reconhecimento das suas adulações.
Proudhon, não o ignora nunca e não é o único. O socialismo nascente, que se associa sempre dos nossos dias ao romantismo, está tido na clareza destes literários, aristocratas antigos ou de longa data, onde as revoltas de fachada apanham mal a submissão na ordem estabelecida e após as ambições pessoais. O pequeno mundo dos cenéculos parisienses não tem nada em comum com os sofrimentos dos trabalhadores, mesmo quando ele difunde sobre as lágrimas de convenção.
Certamente, há excepções, pelo menos vistas do exterior. Por exemplo Georges Sand. Ei! falamos se Proudhon detesta os “femmelins”, sabe-se que ela é a sua concepção do papel das mulheres na sociedade. Uma mulher-autora, tendo deixado o seu marido e, mais, vivendo tudo como um homem, só podia arrepiar. Eu não lembraria um detalhe, pensando que nada aqui as ignora, os sarcasmos pouco galantes contra Georges Sand, que se encontra em inúmeras reconquistas sob a sua pena. Um dos escritos póstumos, publicado pelo estado onde ele foi encontrado ( A Pornocracia ) está quase inteiramente consagrado naquela querela, largamente prescrevida, e´preciso dizê-lo.
Além da polémica pessoal, permanece a adequação estricta estabelecida entre a moral e a revolução. A base do proudhonismo é recusar toda a diferença entre o que é dito e o que é feito. Eis o seu décimo, e não o meio, perante o romantismo e os românticos: eles são ( ou seriam ) substancialmente imorais. É uma consequência fatal do seu irracionalismo, segundo o autor da Justiça. A Srª Sand pode bem namoriscar com os socialistas, se ela não vive segundo o socialismo, ela não tem nada de socialista. A consequência o confirmará, pelo menos em parte.
Sobre este ponto fulcral, é preciso ainda remontar a Rousseau. Não somente a sua vida foi um contra-exemplo mas é para ele que remonta, sempre a mesma monstruosa hipertrofia do ego, a decadência dos costumes que segundo Proudhon caracteriza o século. Eis o seu diagnóstico deste assunto: “Héloise revelou o amor e o casamento… mas ela tem também preparada a dissolução: da publicação deste romance data para o nosso país o enfranquecimento das almas pelo amor, o enfranquecimento que devia seguir de perto uma fria e sombria desonestidade” ( Justiça, IV, 218 ).
Depreciador do amor-paixão – no qual ele diz: “O amor, eu não o amo” ( Justiça, IV-275 ) – Proudhon é antes demais o adversário desta “fraternidade” que vários socialistas, vencidos pelo sentimentalismo ambiente, colocando quase abaixo da liberdade e da igualdade.
Reminiscência ou substituto de uma religião adulterada, esta vaga aspiração à concórdia social só pode terminar nos piores enganos. Se a sociedade não está fundada sobre a Justiça, poder-se-à abraçar ao que melhor isso acabará sempre com os dramas.
Mesmo que a maioria dos socialistas cedam à moda, são feitos os defensores da união livre e do maltusianismo, mesmo daqueles que não juram que a mão sobre o coração, esperando sobre a sua própria generosidade, estão mais perto de beijar Lamounette do que das duras exigências da revolução a fazer.
Quanto ao romantismo político, Proudhon não lhe é menos hóstil, embora partilhando algumas das suas aspirações. Segundo ele, inflamar-se inconsideravelmente para a liberdade dos povos, é expôr a Europa ao dilaceramento, se não se propõe como questão desta liberação que uma ostentação de Estados soberanos seguindo o modelo do jacobinismo. Os Mazzini, os Kosbuth e os seus epígonos defendem uma causa justa com meios que se revoltam contra ela.
Antes da “Primavera dos povos” e nos anos que se seguiram, a polémica proudhoniana abunda nas palavras fustigantes perante estes nacionalistas do sentimento. No grande escândalo do partido republicano, o anarquista da Ideia geral da Revolução virá defender o equilíbrio dos tratados de 1815 contra os apóstolos da unidade italiana ou do pangermanismo. É a origem do seu federalismo, que se esforça para conciliar a exigência de autonomia com a necessidade de unidade. Sem estar com rodeios no assunto, este capítulo levava-nos muito longe.
Chegamos à arte, depois do total domínio real do romantismo. Fazendo da arte uma realização do ideal na sociedade, Proudhon recusa o lugar preponderante assinado no “foro sagrado”, na “inspiração” do criador. Ele não acredita neste divino respirar que divinizaria aquele que é favorizado e, colocam à parte outros humanos, conferindo-lhes todos os direitos.
A concepção proudhoniana da arte não se separa dos seus objectivos de trabalho no geral, já que para ele a obra artística só é uma das modalidades de acção humana sobre a matéria. O absolutismo artístico é também falso como todos os outros: os que proclamam o contrário acabarão em tiranos de arte, não menos perigosos que os tiranos políticos.
De uma certa maneira, todos os homens são artistas ou podem vir a sê-lo. Há tanta beleza na produção utilitária do que nas obras ditas artísticas: “Tal operário dispensa mais o espírito do que em ferrar um cavalo que tal folhetinista escreveu uma nova”. Ou ainda: “São precisas cem vezes mais inteligência para construir uma máquina a vapor que para escrever cem capítulos de Bálsamo; e tal patrão do Reno que não sabe ler dispensa mais do espírito fazendo um curso, que não há em todas as orientações ( Ideias revolucionárias, ed. De 1849, p. 48 ). Depois disso não se admira que Proudhon tivesse sido tido como um abominável filistino como grande parte dos bons espíritos da sua época.
Não é que ele despreze a arte, longe disso. Pelo contrário, o lugar que lhe é atribuído na história humana no geral e mais particularmente na sociedade futura é de toda a primeira importância como será ele aliás já que “a arte é mesmo a liberdade” ( Justiça, III-583 ), então o primeiro objectivo assinado na Revolução é a abolição de toda a servidão? Mas a arte não jogará plenamente seu papel já que ele está subordinado ao perfeccionismo de todos, e não reservado à glória vã de alguns. Na grande querela que ele ocupou no século, Proudhon tem vigorosamente condenado o sofismo da “arte pela arte”: “A arte pela arte (…) não descança sobre nada, não é nada” ( Príncipio de Arte, p. 70 ). Pelo contrário, ele toma decididamente partido a favor da “arte social”.
Apesar dos mal-entendidos terem circulado e circulam ainda nesta questão. A fórmula, quase tantológica da “arte social” não significa em nada que os criadores devem ser os propagandistas de uma forma particular da sociedade. O modelo proudhoniano não é o “grande” século, ainda menos o futuro “realismo socialista”. O que ele quer dizer é que a arte, como toda a produção humana, inscreve-se no conjunto do corpo social, onde ele exprime as aspirações e os sofrimentos, as cóleras e as esperanças. Todos são chamados para lá participar, quer seja como criadores ou como consumidores, distinção além de largamente formal.
“A arte é solidária da ciência e da Justiça: ele eleva-se com elas e desce ao mesmo tempo” ( Justiça, III-584 ). Os românticos afirmaram-se certamente que eles eram a voz da multidão e o eco do seu tempo. Como é que um artista digno deste nome poderia pensar o contrário? Mas a concepção do artista-demiurgo, a reivindicação de uma total independência, não seguros perante o poder estabelecido mas da sociedade, a pretensão aos direitos sem limites do génio, inscreviam-se falsamente contra esta reivindicação, tão sincera que ela tinha sido. Sem falar das infatuações mais medíocres e os interesses mercantis nos quais as grandes palavras de autonomia da criação, da soberania do artista e a religião da arte forneceram mais um alibi. Se a arte não tem como objectivo a delecção de alguns e a satisfação da vontade do poder do artista (ou pretendido), é uma mensagem, que contribui para dissolver o laço social pelo laço de criar.
Assim a hostilidade de Proudon aos olhos das teorias românticas, e o seu pouco gosto pela grande parte das obras que se reclamam, só puderam colocá-lo na margem dos literários do seu tempo. Inúmeros entre eles, particularmente todos os que se espalhavam pela pequena imprensa, não lhe ameaçaram os seus sarcasmos, à excepção dos limites da boa fé.
Mesmo os grandes ignoraram este Caliban filosófico, tão elogiado as suas concepções da sua linguagem e das formas de viver. Proudhon nota mesmo, por outro lado, que ele frequentou muito pouco dos seus contemporâneos. Quer estes o tenham desprezado, quer ele os tenha desprezado. Ele tem geralmente as palavras duras, injustas, para o pequeno mundo dos homens de letras que lhe é chegado a bordejar, em particular no jornalismo: “Para mim, eu vi pouco da vida destes boémias literárias, destas pinturas de amor e de virtude; eu conheço também um pouco as receitas do estilo, e eu não sou nada levado em fingimentos de J.-J. ( Rousseau ) do que dos de Balzac, J. Janin, Nodier e participantes (…) Este mundo arrasta-se, em virtude da faculdade literária, o privilégio do vício, da indelicadeza, da traição, da hipocrisia, e mesmo da intolerância: estes são os seres depravados que se idolatram, por algumas páginas em miniatura, onde se encontra a figura de algo de bom e honesto sentimentos. (…) …eu odeio estes homens, eu digo-lo sem…” ( Cadernos, III-291, 292 ).
Entre os escrivãos notórios do seu tempo, Michelet é um dos raros que Proudhon tinha frequentado um pouco, aliás, tardiamente e de forma um pouco compassada: os seus bens são tratados.
Pouco rancorosa, a boa Srª Sand desejou vê-lo, apesar de ele estar em Sainte-Pèlaige. Mas o prisioneiro recusa esta oferta. Em termos aliás, fortemente afáveis já que ele assegura aquele que ele era e será o objecto de tantos golpes vindo dele, da sua “vida e sincera admiração” ( Carta de 30 Janeiro de 1852, Fonds Sand da Bibl. Hist. da Cidade de Paris, Nº G 5244 ).
Na mesma época, e pelo mesmo motivo, Proudhon recebe também a visita de Victor Hugo, vindo para ver o seu filho Charles incarcerado no mesmo lugar. Este reencontro, certamente o último entre os dois homens é assim relatado nos Cadernos: “Eu recebi a visita do poeta Victor Hugo. Conversa bastante longa. V. Hugo é revolucionário desde os 30 anos. Ele crê que a fraternidade somente pode resolver a questão social” ( Cadernos, IV-294 ).
Nota-se o acento sarcástico sempre colocado sobre a palavra de fraternidade, e o tom geralmente condescendente desta breve anotação. Portanto, ainda que ele pinte o homem com uma miserável apreciação Proudhon tinha uma certa admiração para a obra de Hugo e, desde a monarquia de Julho, seguia com alguma curiosidade os progressos da sua orientação para com uma espécie de socialismo.
Eles tinham dado conhecimento logo quando, eleitos sobre a mesma lista complementar do Sena, eles tinham um e outro representantes do povo em 49. Os bens pareciam ter sido então sobretudo frios. De seguida um reencontro fortuito, o mesmo dia do golpe de Estado de 2 Dezembro, é relatado de forma sobretudo malévola por Hugo: ele insinua que a permissão obtida pelo prisioneiro precisamente nesta data, é devido a uma complacência significativa do poder que se colocava no lugar. A página termina assim: “Nós nos deixamos. Ele enterra-se no ombro, eu nunca mais o vi” ( História de um crime ). Nós sabemos que ele teve uma última conversa, sem dúvida depois a redacção deste texto.
Esta ruptura seca, sobre uma incompreensão recíproca, resumo e definitivo bastante bem os benefícios de Proudhon com os românticos. Da parte destes últimos uma missa à distância um pouco espantada, quando isso não foi uma ignorância condescendente. Do lado de Proudhon, a certeza que ele tinha num outro mundo e dirigia-se algures, que ele não tinha nada de comum com os literários. Atitude aos olhos do romantismo que se resume nesta interrogação, que é ao mesmo tempo uma resposta: “Temos necessidade do mal?” ( Justiça, I-261 ).
Francisco Trindade
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
O ceguinho podólatra Glauco Mattoso, um livre-pensador
Já se vão alguns anos desde a primeira vez que li algo escrito por Glauco Mattoso (1951). Suas colunas na revista (posso dizer petista?) Caros Amigos ou seu livro iniciático à poesia marginal da época da Ditadura (O que é poesia marginal), ambos foram lidos, por mim, há pelo menos cinco anos. Faz mais tempo ainda desde a última vez que o vi na TV, no extinto programa Musikaos da claudicante TV Cultura.
Li recentemente muitos sonetos do Glauco Mattoso (pseudônimo que alude ao mesmo tempo à doença congênita glaucoma e ao poeta barroco Gregório de Matos) em seu sítio pessoal, nas páginas que reune parte da obra poética, e em sua coluna no Portal Cronópios.
Além da tara por pés e solas, e sua postura de eterno fudido (em todos os sentidos), ele também se posiciona com relação à política e aos políticos. Dentre outras coisas, é do que tratam os sonetos abaixo:
#17 Sádico [1999]
Legal é ver político morrendo
de câncer, quer na próstata ou no reto,
e, p'ra que meu prazer seja completo,
tenha um tumor na língua como adendo.
Se for ministro, então, não me arrependo
de ser-lhe muito mais que um desafeto,
rogar-lhe morte igual à que um inseto
na mão da molecada vai sofrendo.
Mas o melhor de tudo é o presidente
ser desmoralizado na risada
por quem faz poesia como a gente.
Ele nos fode a cada canetada,
mas eu, usando só o poder da mente,
espeto-lhe o loló com minha espada.
#18 MASOQUISTA [1999]
Político só quer nos ver morrendo
na merda, ao deus-dará, sem voz, sem teto.
Divertem-se inventando outro projeto
de imposto que lhes renda um dividendo.
São tão filhos da puta que só vendo,
capazes de criar até decreto
que obrigue o pobre, o cego, o analfabeto
a dar mais do que vinha recebendo.
Se a coisa continua nesse pé,
acabo transformado no engraxate
dum senador qualquer, dum zé mané.
Vou ser levado, a menos que me mate,
à torpe obrigação de amar chulé,
lamber feito cachorro que não late.
#25 POLÍTICO [1999]
A esquerda quer mudança no regime:
trocar todas as moscas sobre o troço;
mais gente repartindo o mesmo almoço,
p'ra ver se a humanidade se redime.
A situação não quer mexer no time:
o jogo da direita é o mesmo osso,
o mesmo cão, e nada de alvoroço,
mantendo o status quo que nos oprime.
Um cego como eu, politizado,
consciente de não ser tão incapaz
que não possa escolher qual é meu lado;
P'ra mim, desde que seja dum rapaz
o pé pelo qual quero ser pisado,
direito como esquerdo, tanto faz.
O gosto musical do poeta chama a atenção; rockabilly, punk rock e outras vertentes do rock, além do ska fazem parte de suas preferências; as quais compartilho. Há poemas que mencionam (julgam) bandas como Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks, Dead Kennedys, Exploited, Ramones, Stiff Little Fingers, Sham 69, Stray Cats, The Macc Lads, The Specials, Toy Dolls e outras tantas. Em vez de ficar no lugar comum da classe letrada, a MPB, o bardo enaltece o rock'n'roll sem frescura.
A preferência musical é apenas uma das facetas dessacralizadoras de Glauco, que já foi chamado de marginal, experimental e maldito; rótulos que prontamente assumiu.
#43 VANGUARDISTA [1999]
Vanguarda é classicismo, e a prova disso
está nos manifestos: em que pese
o mau comportamento, viram tese,
tratados como o texto mais castiço.
Não nego que elas prestam bom serviço,
mostrando algo de novo que se preze.
O mal é quando espalham catequese,
querendo impor que o resto está cediço.
Aqui nem há razão p'ra que me queixe:
Quer seja ou não vanguarda ou velha guarda,
não deixo de vender meu mixo peixe.
Não viso academia, chá nem farda;
só peço a cada membro que me deixe
lamber seu pé com minha língua barda...
#44 MALDITO [1999]
O veio subterrâneo e fescenino
do qual Zé Paulo Paes foi bandeirante
tem repertório altíssimo e abundante
que vai de Marcial até Aretino.
Na língua portuguesa já declino
três nomes do listão mais importante:
Bocage, Lagartixa e o infamante
Gregório, véi de guerra, esse menino!
Nem penso em me incluir nessa caterva,
até porque meu vício é bem menor.
Quem for mais perspicaz na certa observa:
Aquilo que o Mattoso faz melhor
é só o que a sorte cega lhe reserva:
tirar leite de pé, lamber suor.
#45 MARGINAL [1999]
Assim como o menor abandonado
converte-se bem cedo no infrator,
também na poesia há muito autor
rebelde só porque ficou de lado.
Os jovens querem dar o seu recado
do modo mais avesso e transgressor,
até chegar num ponto em que o louvor
consagra todo o coro amotinado.
O fato é que o legítimo indigente
é quem fica isolado na conversa
enquanto as outras partes fazem frente.
Me sinto assim. A turma já dispersa
ao ver que meu assunto é o pé, somente.
O tema é marginal, e vice-versa.
Notem que no soneto “Maldito”, o sujeito-lírico se insere numa tradição que conta com Aretino, Marcial, Gregório de Matos, Bocage e Lagartixa (Laurindo Rabelo). Essa tradição seria o veio subterrâneo da literatura, a literatura fescenina.
As informações abaixo, sobre o poeta Mattoso e sua arte, foram retiradas do já mencionado sítio pessoal.
Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias. Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.
Após cursar biblioteconomia (na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, bacharelando-se em 1972) e letras vernáculas (na USP, sem concluir), ainda nos anos 1970 participou, entre os chamados "poetas marginais", da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário "Jornal Dobrabil" (trocadilho com o "Jornal do Brasil" e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como "Lampião" (tablóide gay) e "Pasquim" (tablóide humorístico), além de periódicos literários como o "Suplemento da Tribuna" e as revistas "Escrita", "Inéditos" e "Ficção".
Durante a década de 1980 e o início dos anos 1990 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (gibis "Chiclete com Banana", "Tralha", "Mil Perigos" e outros, mas não deve ser confundido com o cartunista Glauco Villas Boas) até a música (revistas "Somtrês", "Top Rock"), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no "Jornal da Tarde", ensaios na "Status" e na "Around"), e publicou vários volumes de poesia e prosa.
Na década de 1990, com a perda da visão, abandonou a criação de cunho gráfico (poesia concreta, quadrinhos) para dedicar-se à letra de música e à produção fonográfica, associado ao selo independente Rotten Records.
Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do século, a produzir poesia escrita e textos virtuais, seja em livros, seja em seu sítio pessoal ou em diversas revistas eletrônicas ("A Arte da Palavra", "Blocos On Line", "Fraude", "Velotrol", "Capitu", "Cronópios", "GLX") e impressas ("Caros Amigos", "Outracoisa", "G Magazine", "Discutindo Literatura"). Jamais deixou, entretanto, de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente incorretos (violência, repugnância, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de "poeta maldito" e lhe inscrevem o nome na linhagem dos autores fesceninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire, Sade ou Genet.
Em colaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um prêmio Jabuti em 1999. Nesse terreno bilíngüe GM tem-se dedicado a outros autores latino-americanos, como Salvador Novo e Severo Sarduy, e tem sido traduzido por colegas argentinos, mexicanos e chilenos.
Em vídeo, GM foi entrevistado ou convidado, entre outros, dos programas "Metrópolis", "Vitrine", "Fanzine", "Provocações", "Entrelinhas", "Letra Livre", "Almanaque Educação", "Manos e Minas", "Matéria Pública" e "Musikaos" (TV Cultura), "Sem Frescura" e "Palavrão" (Canal Brasil), "Circular" e "Saca-Rolha" (Rede 21), "Todo seu" (TV Gazeta), "Saia Justa" (Rede Mulher), "Literatura" (redes SENAC e Educativa) e "Jogo de Idéias" (Itaú Cultural/TV-PUC).
Segundo Pedro Ulysses Campos, "A poesia de Glauco Mattoso pode ser dividida, cronologica e formalmente, em duas fases distintas: a primeira seria chamada de FASE VISUAL, enquanto o poeta praticava um experimentalismo paródico de diversas tendências contemporâneas, desde o modernismo até o underground, passando, principalmente, pelo concretismo, o que privilegiava o aspecto gráfico do poema; a segunda fase seria chamada de FASE CEGA, quando o autor, já privado da visão, abandona os processos artesanais, tais como o concretismo dactilográfico, e passa a compor sonetos e glosas, onde o rigor da métrica, da rima e do ritmo funciona como alicerce mnemônico para uma releitura dos velhos temas mattosianos (a fealdade, a sujidade, a maldade, o vício, o trauma, o estigma), reaproveitando técnicas barrocas e concretistas (paronomásia, aliteração, eufonia e cacofonia dos ecos verbais) de mistura com o calão e o coloquialismo que sempre caracterizaram o estilo híbrido do autor. A fase visual vai da década de 1970 até o final dos anos 1980; a fase cega abre-se em 1999, com a publicação dos primeiros livros de sonetos."
Para encerrar, cabe aqui informar que a partir de Janeiro de 2009, o autor tem escrito conforme as normas ortográficas de dois séculos atrás. Para ler seus textos escritos desta forma, basta acessar sua coluna no Portal Cronópios e seus últimos sonetos.
Fiquem com mais dois sonetos do ceguinho.
#190 REDUNDANTE [1999]
Pediram-me um escândalo, e é p'ra já.
Malversação de fundos? Nada disso.
O seio da modelo, que é postiço,
também já não excita a língua má.
A droga nas escolas? Ninguém dá
a mínima importância ao desserviço.
Seqüestro de empresário? Algum sumiço?
Remédio adulterado? Quá! Quá! Quá!
A fraude eleitoral virou rotina.
As contas no exterior não causam pasmo.
Ninguém estranha o cheiro da latrina.
Até Matusalém já tem orgasmo!
Só resta a comentar, em cada esquina,
que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!
#2349 PARA UM IMAGINÁRIO MORTUÁRIO (III) [16/3/2008]
E do Municipal? Muito se narra,
mas esta me contaram que é verdade.
O prédio, certa noite, um punk invade,
disposto a ver fantasma até na marra!
Silêncio. Tudo escuro. A quem por farra
entrara no teatro, persuade
a mágica atmosfera de vaidade
à qual o artista, em vida, em vão se agarra.
O punk, então, no palco vê que o Mário,
o Oswaldo e os outros foram o que, agora,
quer ele ser: rebelde e libertário...
Mas cada modernista que ali chora
a efêmera inscrição no calendário
lamenta não ser novo como outrora...
NOTA: Refere-se, o eu-lírico, à Mário de Andrade e Oswald de Andrade, nomes centrais do Movimento Modernista, eternizado na Semana de 1922.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
O Proudhoniano Eça de Queirós - Francisco Trindade
O texto que coloco neste espaço foi retirado do blogue ANOVIS ANOPHELIS, de Francisco Trindade. Trata, o texto, do influxo das considerações estéticas de Proudhon na produção queirosiana. Retomo, desta forma, a questão literária, que tanto me agrada.
Silva M. O.
Publicado originalmente em: http://franciscotrindade.blogspot.com/2010/12/o-negro-e-o-vermelho_04.html
"Uma sociedade sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá-las é um dever."
Eça de Queirós, 1879.
O realismo aparece na mente de Eça de Queirós associado às ideias estéticas de Proudhon. Para ele, realismo é fundamentalmente Proudhon com uns pós de Taine. Nunca ninguém se lembrará de aproximar as ideias estéticas de Proudhon do realismo literário. Tão pouco se tinha visto ainda aproximar as teorias do meio, de Taine das teorias sociais do autor do Do Princípio de Arte.
Mas a conferência "A Nova Literatura " que Eça de Queirós apresenta no casino Lisbonense em 1871 subintitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte não é somente uma exposição das ideias destes dois pensadores franceses. Antes de mais nada, foi uma crítica ao estado decadente das letras nacionais, embora sem descer a uma concretização positiva. Essa concretização fizera-a ele em As Farpas no seu estado social de Portugal em 1871, publicado precisamente dias antes da conferência.
Para Proudhon, o realismo ensinava simultaneamente ao artista a " exprimer les aspirations de l' époque actuelle " e a ter em conta que a arte é "une representation idéaliste de la nature et de nous-mêmes, en vue du perfectionnement physique et moral de notre espéce " (Do Princípio de Arte e do seu Destino Social) no que se opunha a Taine , que tinha por secundário o ideal moral. Para este, todos os temas eram dignos de ser pintados; para Proudhon, não . Associar, pois as doutrinas estéticas de Taine às de Proudhon era uma simbiose audaciosa que Eça de Queirós não receou levar a cabo .
Nas conclusões da sua conferência há afirmações expressas: Em primeiro lugar o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Em segundo lugar, o Realismo deve proceder pela sua experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos carácteres.
Mas principiemos pelo princípio. Proudhon, no Da Justiça na Revolução e na Igreja apresenta a Revolução como um vasto sistema filosófico em que se enquadra a sociologia, a política, a economia, a moral - e a própria literatura . No terceiro tomo dessa obra pode ver-se inclusivamente um estudo, o nono, em que o problema literário é focado ( cap. VII e VIII). Eça, literato, deve ter começado por aí. Nas Notas Contemporâneas pode ler-se o seguinte: " Sob a influência de Antero logo dois de nós, que andavamos a compôr uma ópera - bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonamos essa obra de escandoloso delírio - e começamos à noite a estudar Proudhon nos tomos da "Justiça na Revolução e na Igreja "...
Na verdade a sua conferência acusa pontos de contacto com essa obra. Há afirmações ácerca da revolução que são de lá . Aquela visão da literatura revolucionária, de Rabelais a Beaumarchais, é também de lá. Entretanto, Proudhon, que prometia aí um vasto estudo à parte sobre a literatura - vem a publicar, ou melhor, publicam-lhe os discípulos em obra póstuma - o D. Eça, encaminhado por aquela leitura, aconselhada por Antero (acerca da influência de Proudhon na obra de Antero de Quental ,ver o nosso artigo na Batalha, nº134,Out/Dez 91, pp.10-11, " O Socialismo Proudhoniano de Antero de Quental " ) procura agora o novo livro. E a conferência revela vastos pontos de contacto com ele .Este livro tinha saído em 1865 e era o primeiro duma série de póstumos.
Assentando todo em reflexões que a obra realista de Courbet lhe sugerira, Proudhon quisera em Do Princípio de Arte sujeitar a arte ao pensamento dum destino social . A arte, dali para o futuro deveria ser condição de melhoramento das sociedades, e o realismo a sua expressão . Em três capítulos iniciais assentara nisto. A arte que fugisse desse ideal era falsa. Querendo demonstrar que, afinal, o papel da arte, sempre tinha sido esse - desde o IV capítulo até ao X, fez um estudo interpretativo da evolução histórica da arte. Os oito capítulos seguintes são de análise à obra realista de Coubet. Nos restantes capítulos, do XIX ao XXV, dispendem-se argumentos e considerações que hão-de levar ao estabelecimento dum critério de criação artística em vista do seu destino social.
O Proudhonismo - incluindo o de Eça de Queirós - assenta em três noções fundamentais : a Consciência, a Justiça e a Igualdade. A Consciência e a Justiça são duas faces da mesma coisa. A Consciência é o sentimento que o sentimento que o homem tem de si, dos seus direitos e dos seus deveres . Mas esta noção Kantiana não basta a Proudhon, sociólogo: só lhe interessa o homem em grupo, e a equação de homem para homem. Ora cada homem, supõe Proudhon, sente como a sua própria, a dignidade e os direitos do seu semelhante; é a consciência objectivando-se - a que ele dá o nome de Justiça . A Justiça impõe o respeito recíproco e conduz inevitavelmente à igualdade, porque nos leva a exigir aos outros o mesmo que os outros exigem de nós e porque nos leva a respeitar os outros tanto como a nós mesmos, uma vez que a Consciência se tem de supor idêntica em cada um.
Por outro lado, desde que a Consciência é uma noção imediata, consubstancial à própria natureza humana, e a Justiça é a sua face social, tão inevitável como ela, é claro que a Igualdade se realizará fatalmente; e a Evolução não é que a sua realização progressiva. Por isso escrevia Oliveira Martins que a teoria do socialismo é a evolução. Nada impedirá que ela se ela se realize; mas essa realização será gradual e evolutiva. Por isso Proudhon não acredita em subversões perturbadoras, que, além do mais são uma violação do princípio da Justiça: "Revolução" é para ele sinónimo de Evolução no sentido de Igualdade; e propende a só considerar como sã uma sociedade desde que nela exista a par de uma inércia conservadora um impulso renovador evolutivo.
Em nome deste princípio da Justiça e desta lei da Igualdade critica Proudhon a organização social-económica da sua época, e nomeadamente a propriedade deveria ser tal que todos participassem nela, porque todos, em virtude da lei da Igualdade, têm o mesmo direito a ela. Isto não significa a supressão pura e simples da propriedade ou a sua colectivação, no pensar de Proudhon, mas antes a criação de um novo tipo de propriedade, que ele denomina "posséssion" que é no fundo, o usufruto do trabalho. À mesma crítica se presta a grande indústria, cujos meios de produção, segundo Proudhon, deviam estar nas mãos de companhias de trabalhadores.
Proudhon nega-se, portanto, a toda a organização estatista e à colectivização; e o seu ideal seria, concretamente, quanto à terra, a distribuição duma vasta colectividade de pequenos lavradores; quanto à produção industrial a transferência do capital e dos lucros para os próprios operários organizados. È a ideia base do cooperativismo.
Toda esta teoria a encontramos ao longo da obra de Eça de Queirós como membros dispersos, que, reunidos, permitem perceber o conjunto da construção.
A par dos objectivos da Revolução considera Eça o próprio processo da Revolução. E aqui a marca deixada por Proudhon aparece muito profunda - talvez por encontrar um eco em alguma coisa de pessoal e íntimo no escritor. Eça aceitou, compreendeu e glosou até ao fim da vida as duas noções fundamentais de Proudhon a este respeito: que a Revolução é uma evolução contínua e fatal - de modo algum um crise brusca; e que a Revolução se operará não já por uma transformação política mas por uma transformação puramente económica e técnica.
Francisco Trindade
Silva M. O.
Publicado originalmente em: http://franciscotrindade.blogspot.com/2010/12/o-negro-e-o-vermelho_04.html
"Uma sociedade sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá-las é um dever."
Eça de Queirós, 1879.
O realismo aparece na mente de Eça de Queirós associado às ideias estéticas de Proudhon. Para ele, realismo é fundamentalmente Proudhon com uns pós de Taine. Nunca ninguém se lembrará de aproximar as ideias estéticas de Proudhon do realismo literário. Tão pouco se tinha visto ainda aproximar as teorias do meio, de Taine das teorias sociais do autor do Do Princípio de Arte.
Mas a conferência "A Nova Literatura " que Eça de Queirós apresenta no casino Lisbonense em 1871 subintitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte não é somente uma exposição das ideias destes dois pensadores franceses. Antes de mais nada, foi uma crítica ao estado decadente das letras nacionais, embora sem descer a uma concretização positiva. Essa concretização fizera-a ele em As Farpas no seu estado social de Portugal em 1871, publicado precisamente dias antes da conferência.
Para Proudhon, o realismo ensinava simultaneamente ao artista a " exprimer les aspirations de l' époque actuelle " e a ter em conta que a arte é "une representation idéaliste de la nature et de nous-mêmes, en vue du perfectionnement physique et moral de notre espéce " (Do Princípio de Arte e do seu Destino Social) no que se opunha a Taine , que tinha por secundário o ideal moral. Para este, todos os temas eram dignos de ser pintados; para Proudhon, não . Associar, pois as doutrinas estéticas de Taine às de Proudhon era uma simbiose audaciosa que Eça de Queirós não receou levar a cabo .
Nas conclusões da sua conferência há afirmações expressas: Em primeiro lugar o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Em segundo lugar, o Realismo deve proceder pela sua experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos carácteres.
Mas principiemos pelo princípio. Proudhon, no Da Justiça na Revolução e na Igreja apresenta a Revolução como um vasto sistema filosófico em que se enquadra a sociologia, a política, a economia, a moral - e a própria literatura . No terceiro tomo dessa obra pode ver-se inclusivamente um estudo, o nono, em que o problema literário é focado ( cap. VII e VIII). Eça, literato, deve ter começado por aí. Nas Notas Contemporâneas pode ler-se o seguinte: " Sob a influência de Antero logo dois de nós, que andavamos a compôr uma ópera - bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonamos essa obra de escandoloso delírio - e começamos à noite a estudar Proudhon nos tomos da "Justiça na Revolução e na Igreja "...
Na verdade a sua conferência acusa pontos de contacto com essa obra. Há afirmações ácerca da revolução que são de lá . Aquela visão da literatura revolucionária, de Rabelais a Beaumarchais, é também de lá. Entretanto, Proudhon, que prometia aí um vasto estudo à parte sobre a literatura - vem a publicar, ou melhor, publicam-lhe os discípulos em obra póstuma - o D. Eça, encaminhado por aquela leitura, aconselhada por Antero (acerca da influência de Proudhon na obra de Antero de Quental ,ver o nosso artigo na Batalha, nº134,Out/Dez 91, pp.10-11, " O Socialismo Proudhoniano de Antero de Quental " ) procura agora o novo livro. E a conferência revela vastos pontos de contacto com ele .Este livro tinha saído em 1865 e era o primeiro duma série de póstumos.
Assentando todo em reflexões que a obra realista de Courbet lhe sugerira, Proudhon quisera em Do Princípio de Arte sujeitar a arte ao pensamento dum destino social . A arte, dali para o futuro deveria ser condição de melhoramento das sociedades, e o realismo a sua expressão . Em três capítulos iniciais assentara nisto. A arte que fugisse desse ideal era falsa. Querendo demonstrar que, afinal, o papel da arte, sempre tinha sido esse - desde o IV capítulo até ao X, fez um estudo interpretativo da evolução histórica da arte. Os oito capítulos seguintes são de análise à obra realista de Coubet. Nos restantes capítulos, do XIX ao XXV, dispendem-se argumentos e considerações que hão-de levar ao estabelecimento dum critério de criação artística em vista do seu destino social.
O Proudhonismo - incluindo o de Eça de Queirós - assenta em três noções fundamentais : a Consciência, a Justiça e a Igualdade. A Consciência e a Justiça são duas faces da mesma coisa. A Consciência é o sentimento que o sentimento que o homem tem de si, dos seus direitos e dos seus deveres . Mas esta noção Kantiana não basta a Proudhon, sociólogo: só lhe interessa o homem em grupo, e a equação de homem para homem. Ora cada homem, supõe Proudhon, sente como a sua própria, a dignidade e os direitos do seu semelhante; é a consciência objectivando-se - a que ele dá o nome de Justiça . A Justiça impõe o respeito recíproco e conduz inevitavelmente à igualdade, porque nos leva a exigir aos outros o mesmo que os outros exigem de nós e porque nos leva a respeitar os outros tanto como a nós mesmos, uma vez que a Consciência se tem de supor idêntica em cada um.
Por outro lado, desde que a Consciência é uma noção imediata, consubstancial à própria natureza humana, e a Justiça é a sua face social, tão inevitável como ela, é claro que a Igualdade se realizará fatalmente; e a Evolução não é que a sua realização progressiva. Por isso escrevia Oliveira Martins que a teoria do socialismo é a evolução. Nada impedirá que ela se ela se realize; mas essa realização será gradual e evolutiva. Por isso Proudhon não acredita em subversões perturbadoras, que, além do mais são uma violação do princípio da Justiça: "Revolução" é para ele sinónimo de Evolução no sentido de Igualdade; e propende a só considerar como sã uma sociedade desde que nela exista a par de uma inércia conservadora um impulso renovador evolutivo.
Em nome deste princípio da Justiça e desta lei da Igualdade critica Proudhon a organização social-económica da sua época, e nomeadamente a propriedade deveria ser tal que todos participassem nela, porque todos, em virtude da lei da Igualdade, têm o mesmo direito a ela. Isto não significa a supressão pura e simples da propriedade ou a sua colectivação, no pensar de Proudhon, mas antes a criação de um novo tipo de propriedade, que ele denomina "posséssion" que é no fundo, o usufruto do trabalho. À mesma crítica se presta a grande indústria, cujos meios de produção, segundo Proudhon, deviam estar nas mãos de companhias de trabalhadores.
Proudhon nega-se, portanto, a toda a organização estatista e à colectivização; e o seu ideal seria, concretamente, quanto à terra, a distribuição duma vasta colectividade de pequenos lavradores; quanto à produção industrial a transferência do capital e dos lucros para os próprios operários organizados. È a ideia base do cooperativismo.
Toda esta teoria a encontramos ao longo da obra de Eça de Queirós como membros dispersos, que, reunidos, permitem perceber o conjunto da construção.
A par dos objectivos da Revolução considera Eça o próprio processo da Revolução. E aqui a marca deixada por Proudhon aparece muito profunda - talvez por encontrar um eco em alguma coisa de pessoal e íntimo no escritor. Eça aceitou, compreendeu e glosou até ao fim da vida as duas noções fundamentais de Proudhon a este respeito: que a Revolução é uma evolução contínua e fatal - de modo algum um crise brusca; e que a Revolução se operará não já por uma transformação política mas por uma transformação puramente económica e técnica.
Francisco Trindade
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Agenda de eventos - Novembro 2010
Repassando os eventos noticiados neste blog para o mês de novembro:
02/11 terça-feira - 16h30
Rediscutindo o anarquismo e o sindicalismo
Palestra com Lucien van der Walt
Local: Ay Carmela - Rua das Carmelitas, 140, Metrô Sé. São Paulo. Telefone: 3104-4330.
Fonte: Black Flame
04/11 quinta-feira - 10h-18h
Seminário Centenário da Morte de León Tolstoi
Local:UFF (Universidade Federal Fluminense) Campus Gragoatá, Bloco O, 5º andar, Sala 1 (525). Niterói - São Domingos.
Fonte: http://www.ohomemrevoltado.blogspot.com/
05-07/11
1ª Feira do Livro Anarquista em Porto Alegre
Local: Espaço Libertário Moinho Negro, rua Marcilio Dias, 1463.
Fonte: http://flapoa.deriva.com.br
06/11 Sábado - 14h
Rediscutindo o anarquismo e o sindicalismo
Palestra com Lucien van der Walt
Local: Centro de Cultura Social: Rua Torres Homem 790, Vila Isabel, Rio de Janeiro. Telefone: 2520-7101.
Fonte: Black Flame
06/11 Sábado - 16h
Palestra “Foucault e a potência da retórica”, com Nildo Avelino (Doutor em Ciência Política e integrante do CCS).
Local: Centro de Cultura Social. Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República). São Paulo.
Fonte: http://www.ccssp.org
27/11 Sábado - 16h
Lançamento: Malatesta. Biografia ilustrada de um símbolo do anarquismo italiano. Desenhos de Fabio Santin, texto de Elis Fraccaro, posfácio de Nildo Avelino. Tradução de Maria Ling e Nildo Avelino. Editora Robson Achiamé [21x28cm - 106p].
Local: Centro de Cultura Social. Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República). São Paulo.
Fonte: http://www.ccssp.org
02/11 terça-feira - 16h30
Rediscutindo o anarquismo e o sindicalismo
Palestra com Lucien van der Walt
Local: Ay Carmela - Rua das Carmelitas, 140, Metrô Sé. São Paulo. Telefone: 3104-4330.
Fonte: Black Flame
04/11 quinta-feira - 10h-18h
Seminário Centenário da Morte de León Tolstoi
Local:UFF (Universidade Federal Fluminense) Campus Gragoatá, Bloco O, 5º andar, Sala 1 (525). Niterói - São Domingos.
Fonte: http://www.ohomemrevoltado.blogspot.com/
05-07/11
1ª Feira do Livro Anarquista em Porto Alegre
Local: Espaço Libertário Moinho Negro, rua Marcilio Dias, 1463.
Fonte: http://flapoa.deriva.com.br
06/11 Sábado - 14h
Rediscutindo o anarquismo e o sindicalismo
Palestra com Lucien van der Walt
Local: Centro de Cultura Social: Rua Torres Homem 790, Vila Isabel, Rio de Janeiro. Telefone: 2520-7101.
Fonte: Black Flame
06/11 Sábado - 16h
Palestra “Foucault e a potência da retórica”, com Nildo Avelino (Doutor em Ciência Política e integrante do CCS).
Local: Centro de Cultura Social. Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República). São Paulo.
Fonte: http://www.ccssp.org
27/11 Sábado - 16h
Lançamento: Malatesta. Biografia ilustrada de um símbolo do anarquismo italiano. Desenhos de Fabio Santin, texto de Elis Fraccaro, posfácio de Nildo Avelino. Tradução de Maria Ling e Nildo Avelino. Editora Robson Achiamé [21x28cm - 106p].
Local: Centro de Cultura Social. Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República). São Paulo.
Fonte: http://www.ccssp.org
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