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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

2ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre - RS

Foto da 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre

Nos dias 11, 12, 13 e 14 de Novembro, vai acontecer em Porto Alegre (RS) a tão esperada 2ª Feira do Livro Anarquista!
Estamos construindo a programação da feira, e para isto estamos fazendo esse chamado aberto para todo/as que estejam interessado/as em ajudar nesta construção. Você pode se envolver de três jeitos:

• Propondo algum bate-papo, palestra, oficina ou o que mais quiser incluir na programação da feira;
• Colaborar em alguma das comissões de organização da feira, que são: alimentação, infraestrutura, bebidas/bar e a ciranda, que cuidará das crianças do/as participantes do evento;
• Trazendo materiais para exposição.

Então se alguém que virá quiser participar ativamente na organização do evento, pedimos que mande um e-mail para flapoa@libertar.se e coloque no assunto: “colaborar”. Não esqueça de descrever a sua proposta de atividade e/ou a comissão com a qual quer contribuir, para podermos já nos organizar com o número de voluntário/as.

Também quem for vir com material para exposição, e necessitar bancas, também pedimos para que mandem e-mail requisitando-as para que possamos providenciá-las.

Para o/as compas que virão de outras cidades, estaremos disponibilizando lugares para ficarem durante os dias da feira, mas para isso é necessário que enviem com antecedência um e-mail para flapoa@libertar.se e coloque no assunto: “alojamento”. Iremos pedir para os que precisarem de estadia uma contribuição de 10 reais para cobrir alguns dos custos do evento. Lembramos da necessidade de trazerem colchonetes e cobertas. Também vai ter uma área fora que quem tiver barraca vai poder acampar.

Teremos uma comissão para cuidar das crianças que forem vir para o evento enquanto os pais participam das atividades, inclusive desenvolvendo atividades próprias para elas. Portanto, na hora de se inscreverem, por favor também avisem se vem crianças junto, e a idade, para podermos preparar algo bacana.

No mais, fica o chamado para todo/as virem prestigiar o evento, que será marcado por bate-papos, oficinas, livros, filmes, contatos e amizades, enfim, vivências em geral que tanto contribuem para a nossa aproximação enquanto anarquistas.

Este ano também estará acontecendo, nas noites do evento, o 1° Festival de Música Anarquista da FlaPoA, que já conta com bandas de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e, claro, as bandas locais. Se você tem alguma banda e quiser tocar no evento, deixamos aberto o chamado para participarem! Também é só entrar em contato por e-mail!

Comissão de Organização¹ da 2ª Feira do Livro Anarquista

Mais infos: flapoa@libertar.se

[1] Fazemos reuniões abertas semanais de organização, quem quiser comparecer entrar em contato por e-mail.

Fonte: http://noticiasanarquistas.noblogs.org
Página do evento: http://flapoa.deriva.com.br/
Relato da 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre
Fotos da 1ª Feira...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Escritores Libertários

Texto escrito por Ideal Peres, publicado em Letra Livre n.8, de agosto de 1995, e retirado de http://www.nodo50.org/insurgentes/textos/brasil/07escritoreslibert.htm

Em diferentes épocas escritores brasileiros estiveram envolvidos com o anarquismo. Alguns com participação ativa; outros através de seus escritos e, finalmente, os que adotaram posição individualista.

Relembramos Afonso Schmidt, na juventude participante das redações dos jornais libertários. Deixou obra no gênero poesia, teatro, romance, contos. Harmonia é um dos contos literalmente anarquista e, também, o romance Colônia Cecília, em que misturando ficção e realidade provocou enorme desinformação, só recentemente sanada através de pesquisas históricas. Assinalamos o Dr. Fábio Luz, colaborador assíduo da imprensa libertária, introdutor do "romance social" em nossas terras com o livro Ideólogo. Produziu uma série de romances, peças de teatro, estudos científicos e pedagógicos. Maria Lacerda de Moura, injustamente esquecida, competente antifacista de primeira hora, divulgou teses sobre o amor livre e a liberação feminina, que tantos arrepios e indignação provocaram no Brasil vetusto e cavernoso dos anos 30. Dr. Martins Fontes, santista, poeta parnasiano, deixou entre sua enorme produção poética, inúmeras de conteúdo libertário, sem falar em suas conferências assinaladas no livro Fantástica, do qual destacamos a sobre Kropotkin. José Oiticica, figura de proa do movimento anarco-sindicalista, polemista destroçador, inigualável nos escritos satíricos e nas cartas abertas dirigidas aos figurões e manda-chuvas da época, deixou infindável produção de escritos políticos dispersos nos jornais diários do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, citamos Avelino Foscolo, colaborador da imprensa libertária, escreveu vários romances como O Mestiço, Vulcões, A Capital e que só recentemente estão sendo reeditados.

Todos os mencionados mereceram pouquíssimo ou nenhum reconhecimento pela literatura oficial. Entretanto há duas excessões: Campos de Carvalho e Lima Barreto. Em entrevista ao jornal O Globo, em 08/04/95, respondendo a pergunta sobre o vigor libertário de seus livros, onde seus personagens sempre se voltam contra alguma autoridade, afirmou: "Eu sempre fui anarquista, liberto de qualquer dogma". Sabemos que Campos de Carvalho foi, durante sua juventude, colaborador dos jornais libertários A Plebe e A Lanterna. Hoje, reconhecido como escritor importante, teve romances renovadores como A lua vem da Ásia, A vaca do nariz sutil e A chuva imóvel, reeditados pela Editora José Olimpio. Campos de Carvalho é anarquista individualista (Nota do Libera...: Campos de Carvalho faleceu em São Paulo no dia 10 de abril de 1998, aos 82 anos).

Lima Barreto teve seus méritos reconhecidos, porém só depois de seus falecimento. É dele que vamos nos ocupar mais extensamente.

Lima Barreto, anarquista

Afonso Henriques de Lima Barreto, autor genial de Clara dos Anjos, Recordações de Isaías Caminha, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, etc., mulato de temperamento tímido, porém irreverente e desabusado em seus escritos. Em geral trajava roupas amarfanhadas, sapatos empoeirados, garofinha a subir indiscreta pelas orelhas e colarinho encardido. Palheta equilibrada no alto da cabeça. Corpo exalando azedume do suor curtido nos subúrbios proletários onde sem opção habitava.
Freqüentador contumaz de tendinhas encardidas, se afogava em pinga com Fernet, na tentativa de fugir da grande tragédia da sua existência: o pai doido, a miséria em que a duras penas sobrevivia, a cor, a indiferença social, a impossibilidade de mobilizar seu potencial criativo.
Certa feita, advertido de que a cachaça era prejudicial a literatura, replicou que o único prejuízo era a burrice.
Reprovado por três vezes por Licínio Cardoso na cadeira de Mecânica Racional, abandona os estudos de engenharia e efetua concurso para burocrata do Ministério da Guerra. Nessa repartição encontra Domingos Ribeiro Filho, anarquista declarado, atuante nos meios libertários e que o teria influenciado teoricamente.

O movimento anarco-sindicalista começa a crescer. E, 1906 realiza-se o 10 Congresso Operário Brasileiro, no Rio de Janeiro. Com o grupo de intelectuais anarquistas, entre os quais Domingos Ribeiro, Fábio Luz, Curvelo de Mendonça, Elísio de Carvalho, Lima Barreto lança a revista Floreal, de curta existência. Em 1913 é realizado o 20 Congresso Operário Brasileiro, que mobiliza o escritor. Em Lima Barreto, sob a carapaça de solitário, tímido, introvertido, subsistia um espírito fino, alma sensível, inteligência desperta, vigoroso talento pronto para explodir no combate as injustiças sociais, aos desmandos da polícia e a exploração dos poderosos. E isto o fez aderir de vez aos ideais anarquistas.

A partir do ano de 1914 crescem as lutas operárias e, conseqüentemente, a repressão policial. Levas de anarquistas são presos e atirados como fardos em navios para a Europa. Lima Barreto coloca resolutamente sua pena a favor dos oprimidos, proletários e anarco-sindicalistas.

Trilhando as posições libertárias zurze feroz a guerra, o militarismo, a opressão social, o patriotismo, a papuchada político-partidária, o serviço militar obrigatório, o nacionalismo.

Troça do falso feminismo, chá com torradas das elites endinheiradas, sequiosas de se igualarem aos homens nos seus piores vícios.

Dardejou o ópio do futebol, o tráfico de influências, os poderosos do momento, o imperialismo, a falta de caráter nacional.

Compreendendo precocemente que a linguagem e a gramática se tornam instrumentos da opressão e dominação de classes, investiu decidido contra os retóricos tipo Rui Barbosa, parnasianos e simbolistas cultuadores de uma língua que impedia a expressão da vida real.

Das centenas de páginas de seus romances, fufam em turbilhão seus personagens simples, toscos, suburbanos, talhados vigorosamente por sua escrita rústica, direta, oxigenante, libertadora.

As publicações libertárias da época, A Voz do Trabalhador, A Patuléia, A Plebe, A Lanterna, O Debate, sem falar das revistas e dos jornais diários, estão recheados de suas crônicas nos mais de vinte pseudônimos com os quais firmou sua posição anarquista.

Alguns escribas marxistas de visão estrábica se entusiasmaram com a defesa da revolução Russa feita por Lima Barreto. A esses partidários do "socialismo camisa de força", entretanto, diremos que todo libertário a defendeu inicialmente, por se tratar de tentativa de transformação social, feita pelo povo sem as diretrizes ditatoriais que posteriormente tomou.

Quanto ao maximalismo que defendeu, era, nada menos, que a interpretação anarquista da derrubada de um regime despótico e a instalação da autogestão generalizada. Para comprovação é suficiente ler o que escrevia na época.

Quando da grande greve de 1917, em São Paulo, novamente sai Lima Barreto em defesa dos anarquistas presos e deportados, após cessado o movimento.

Em novembro de 1918 explode no Rio um movimento que visava a derrubada das instituições e o estabelecimento de um regime socialista. A rebelião fracassa e centenas de anarquistas são presos e processados. Lima Barreto novamente se coloca em defesa dos revolucionários atacando violentamente o chefe de polícia Aurelino Leal, a quem acoima de "Trepoff barbante". O escritor estava, naquele momento, internado em um hospital.

Lima Barreto não foi orador de comício, agitador de assembléias, organizador de greves, conspirador de movimentos visando derrubadas de autoridades, freqüentador de grupos operários e sindicatos; porém, através de sua pena esteve coerentemente com o movimento anarco-sindicalista e sempre com ele.

Ideal Peres

domingo, 6 de março de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Proudhon e o romantismo


Texto de Francisco Trindade reproduzido em seu blog, a respeito da relação de Pierre-Joseph Proudhon com o romantismo e seus artistas e filósofos

Como homem do século XIX que ele foi, avançando mesmo nos assuntos, P.-J.Proudhon opõe-se portanto, constantemente ao grande impulso estético e ético da sua geração: o romantismo. Pode-se mesmo dizer que ele foi o mais consequente dos anti-românticos. Não seguros da rejeição da novidade, mas pelo nome das convicções que inspiraram toda a sua vida. Na origem, do romantismo – pelo menos em França – há um regresso nostálgico para com o passado, provocado pelo terrível choque do período revolucionário. Pelo contrário, levando em conta a Revolução que ele quis conduzir a seu termo, Proudhon está inteiramente orientado para o futuro.

Essencialmente racionalista, ele nunca recusou a sua dívida perante as Luzes. Não obstante, ou pela causa, de uma educação recebida no clima clérical da Restauração, os seus gostos literários levaram-no à admiração dos clássicos latinos, gregos e franceses. Entre os escrivãos do século XVIII, a sua principal admiração vai para Diderot. “ o mais vasto génio dos tempos modernos” (Justiça, III-85 ). E também, Voltaire surpreendê-lo-à talvez mais, que ele qualifica de “incomparável” ( Cor. VII-194 ). São bem menos pré-românticos.

Subindo mais alto, Proudhon sempre fez as suas delícias de Rabelais, modelo aos seus olhos do espírito francês ( cf. Nomeadamente Justiça, III-328 ). Confiantes no estudo mais perfeito, mostrava que ele não foi insensível às obras de inspiração bem diferentes, nomeadamente as de Shakespeare ( Cor., VII-25 ), Goethe e Schiller ( Cor. VI, 109-110 ) para não citar quais. Mas, quanto ao essencial, a sua preferência está sempre ligada à clareza de pensamento e ao rigor da língua. De uma forma geral na predominância da ideia elaborada sobre a sensação pura.

Ao longo dos seus anos de formação – entre 1820-1830 – não se conheciam ainda outros “românticos” franceses para além de Rousseau, o percursor e Chateaubriand, o anunciador. Defronte do primeiro, Proudhon aprovou os sentimentos de sedução e de repulsão, que são todos salvo os de indiferença: nós vamos lá voltar. Quanto ao autor do Génio do cristianismo, grande revelação literária da época da sua juventude, ele só tem desprezo por “este fraseador sem consciência” ( Justiça, II-380 ), modelo segundo ele, dos reitores lacrimosos e crentes que ele abomina ( as Memórias de Além-túmulo eram-lhe então, e por consequência, desconhecidas: elas parecem ficar conservadas ).

Agitando-se na obra de Jean-Jacques – que não se saberia ter à priori como “passéiste” – Proudhon frequentou bastante pelo contrário, ao ponto que os primeiros escritos fossem impregnados. Muitos dos aspectos reaproximam os dois homens: a origem plebeia, a raiva dos privilégios e a depravação mundana, o anti-conformismo quase selvagem. Mas o que, muito cedo, persegue Proudhon, é o facto que muitos terroristas tinham sido embuidos pelo Contrato Social. Pode-se dizer que, quando ele começa a escrever, é grande parte a partir das questões que lhe colocam, nomeadamente um Robespierre, a degenerência do igualitarismo da humanidade.

Muito cedo, Proudhon descobre que a raiva rousseautista da sociedade tem como origem uma exaltação furiosa do sentimento individual, na qual a infabilidade é oposta aos enfranquecimentos da razão. É isto a origem da desconfiança, para não dizer da quezília dos filósofos perante o seu associado inquietante.

Nada é mais estranho também a Proudhon do que esta espécie de misticismo vago, que se inocenta em todas as boas intenções: “dele”, exclama ele, ( vêem ) por linhas direitas todo o romantismo” ( Cadernos, III, 292 ). Bem mais tarde, recebendo o termo da La Boétie, ele o qualificará desdenhosamente de “femmelin” ( Justiça, IV-216 ). Os seus múltiplos regulamentos de conta com aquele que ele tinha admirado por um tempo, regressando à volta deste tema. Resumi-lo-emos, para fazer depressa este julgamento sem apelo: “… esta cabeça rachada não é francesa… é nele que começam o nosso romantismo e a nossa democracia absurda” ( Príncipio de Arte, 139 ). “Absurda” aqui reduz a acção política a uma efusão e o sufrágio a uma soma, como só se veio a ver muito em 48.

Tão diferente que ele seja na aparência de Rousseau, é este mesmo romantismo – no sentido alargado – que triunfará alguns anos mais tarde celebrando a tradição contra a inovação, reconstruindo uma Idade Média de ficção e referindo-se a um “génio” ancestral que dirigia as sociedades sem que elas tivessem consciência, produzindo os mestres de obra quase na ignorância dos seus autores.

Iludidos pelos desmentidos ulteriores de tantos escrivãos desta geração, nós temos a tendência para esquecer que, na sua juventude, eles eram reclamados daquilo que não podemos chamar de outro modo de”reacção”. Admirador de Napoleão, Chateaubriand foi em seguida o legitimista/apaixonado que se conhece. A passagem brutal do ultramontanismo para o socialismo é flagrante junto de Lamennais. Antes de celebrar a bandeira tricolor, Lamartine era um grande conservador vulgar. E Hugo, ele próprio, chamado para ser um profeta inspirado da esquerda, foi na sua juventude o zelado - e retribuído – defensor da monarquia restaurada, nomeado par de França em reconhecimento das suas adulações.

Proudhon, não o ignora nunca e não é o único. O socialismo nascente, que se associa sempre dos nossos dias ao romantismo, está tido na clareza destes literários, aristocratas antigos ou de longa data, onde as revoltas de fachada apanham mal a submissão na ordem estabelecida e após as ambições pessoais. O pequeno mundo dos cenéculos parisienses não tem nada em comum com os sofrimentos dos trabalhadores, mesmo quando ele difunde sobre as lágrimas de convenção.

Certamente, há excepções, pelo menos vistas do exterior. Por exemplo Georges Sand. Ei! falamos se Proudhon detesta os “femmelins”, sabe-se que ela é a sua concepção do papel das mulheres na sociedade. Uma mulher-autora, tendo deixado o seu marido e, mais, vivendo tudo como um homem, só podia arrepiar. Eu não lembraria um detalhe, pensando que nada aqui as ignora, os sarcasmos pouco galantes contra Georges Sand, que se encontra em inúmeras reconquistas sob a sua pena. Um dos escritos póstumos, publicado pelo estado onde ele foi encontrado ( A Pornocracia ) está quase inteiramente consagrado naquela querela, largamente prescrevida, e´preciso dizê-lo.

Além da polémica pessoal, permanece a adequação estricta estabelecida entre a moral e a revolução. A base do proudhonismo é recusar toda a diferença entre o que é dito e o que é feito. Eis o seu décimo, e não o meio, perante o romantismo e os românticos: eles são ( ou seriam ) substancialmente imorais. É uma consequência fatal do seu irracionalismo, segundo o autor da Justiça. A Srª Sand pode bem namoriscar com os socialistas, se ela não vive segundo o socialismo, ela não tem nada de socialista. A consequência o confirmará, pelo menos em parte.

Sobre este ponto fulcral, é preciso ainda remontar a Rousseau. Não somente a sua vida foi um contra-exemplo mas é para ele que remonta, sempre a mesma monstruosa hipertrofia do ego, a decadência dos costumes que segundo Proudhon caracteriza o século. Eis o seu diagnóstico deste assunto: “Héloise revelou o amor e o casamento… mas ela tem também preparada a dissolução: da publicação deste romance data para o nosso país o enfranquecimento das almas pelo amor, o enfranquecimento que devia seguir de perto uma fria e sombria desonestidade” ( Justiça, IV, 218 ).

Depreciador do amor-paixão – no qual ele diz: “O amor, eu não o amo” ( Justiça, IV-275 ) – Proudhon é antes demais o adversário desta “fraternidade” que vários socialistas, vencidos pelo sentimentalismo ambiente, colocando quase abaixo da liberdade e da igualdade.

Reminiscência ou substituto de uma religião adulterada, esta vaga aspiração à concórdia social só pode terminar nos piores enganos. Se a sociedade não está fundada sobre a Justiça, poder-se-à abraçar ao que melhor isso acabará sempre com os dramas.

Mesmo que a maioria dos socialistas cedam à moda, são feitos os defensores da união livre e do maltusianismo, mesmo daqueles que não juram que a mão sobre o coração, esperando sobre a sua própria generosidade, estão mais perto de beijar Lamounette do que das duras exigências da revolução a fazer.

Quanto ao romantismo político, Proudhon não lhe é menos hóstil, embora partilhando algumas das suas aspirações. Segundo ele, inflamar-se inconsideravelmente para a liberdade dos povos, é expôr a Europa ao dilaceramento, se não se propõe como questão desta liberação que uma ostentação de Estados soberanos seguindo o modelo do jacobinismo. Os Mazzini, os Kosbuth e os seus epígonos defendem uma causa justa com meios que se revoltam contra ela.

Antes da “Primavera dos povos” e nos anos que se seguiram, a polémica proudhoniana abunda nas palavras fustigantes perante estes nacionalistas do sentimento. No grande escândalo do partido republicano, o anarquista da Ideia geral da Revolução virá defender o equilíbrio dos tratados de 1815 contra os apóstolos da unidade italiana ou do pangermanismo. É a origem do seu federalismo, que se esforça para conciliar a exigência de autonomia com a necessidade de unidade. Sem estar com rodeios no assunto, este capítulo levava-nos muito longe.

Chegamos à arte, depois do total domínio real do romantismo. Fazendo da arte uma realização do ideal na sociedade, Proudhon recusa o lugar preponderante assinado no “foro sagrado”, na “inspiração” do criador. Ele não acredita neste divino respirar que divinizaria aquele que é favorizado e, colocam à parte outros humanos, conferindo-lhes todos os direitos.

A concepção proudhoniana da arte não se separa dos seus objectivos de trabalho no geral, já que para ele a obra artística só é uma das modalidades de acção humana sobre a matéria. O absolutismo artístico é também falso como todos os outros: os que proclamam o contrário acabarão em tiranos de arte, não menos perigosos que os tiranos políticos.

De uma certa maneira, todos os homens são artistas ou podem vir a sê-lo. Há tanta beleza na produção utilitária do que nas obras ditas artísticas: “Tal operário dispensa mais o espírito do que em ferrar um cavalo que tal folhetinista escreveu uma nova”. Ou ainda: “São precisas cem vezes mais inteligência para construir uma máquina a vapor que para escrever cem capítulos de Bálsamo; e tal patrão do Reno que não sabe ler dispensa mais do espírito fazendo um curso, que não há em todas as orientações ( Ideias revolucionárias, ed. De 1849, p. 48 ). Depois disso não se admira que Proudhon tivesse sido tido como um abominável filistino como grande parte dos bons espíritos da sua época.

Não é que ele despreze a arte, longe disso. Pelo contrário, o lugar que lhe é atribuído na história humana no geral e mais particularmente na sociedade futura é de toda a primeira importância como será ele aliás já que “a arte é mesmo a liberdade” ( Justiça, III-583 ), então o primeiro objectivo assinado na Revolução é a abolição de toda a servidão? Mas a arte não jogará plenamente seu papel já que ele está subordinado ao perfeccionismo de todos, e não reservado à glória vã de alguns. Na grande querela que ele ocupou no século, Proudhon tem vigorosamente condenado o sofismo da “arte pela arte”: “A arte pela arte (…) não descança sobre nada, não é nada” ( Príncipio de Arte, p. 70 ). Pelo contrário, ele toma decididamente partido a favor da “arte social”.

Apesar dos mal-entendidos terem circulado e circulam ainda nesta questão. A fórmula, quase tantológica da “arte social” não significa em nada que os criadores devem ser os propagandistas de uma forma particular da sociedade. O modelo proudhoniano não é o “grande” século, ainda menos o futuro “realismo socialista”. O que ele quer dizer é que a arte, como toda a produção humana, inscreve-se no conjunto do corpo social, onde ele exprime as aspirações e os sofrimentos, as cóleras e as esperanças. Todos são chamados para lá participar, quer seja como criadores ou como consumidores, distinção além de largamente formal.

“A arte é solidária da ciência e da Justiça: ele eleva-se com elas e desce ao mesmo tempo” ( Justiça, III-584 ). Os românticos afirmaram-se certamente que eles eram a voz da multidão e o eco do seu tempo. Como é que um artista digno deste nome poderia pensar o contrário? Mas a concepção do artista-demiurgo, a reivindicação de uma total independência, não seguros perante o poder estabelecido mas da sociedade, a pretensão aos direitos sem limites do génio, inscreviam-se falsamente contra esta reivindicação, tão sincera que ela tinha sido. Sem falar das infatuações mais medíocres e os interesses mercantis nos quais as grandes palavras de autonomia da criação, da soberania do artista e a religião da arte forneceram mais um alibi. Se a arte não tem como objectivo a delecção de alguns e a satisfação da vontade do poder do artista (ou pretendido), é uma mensagem, que contribui para dissolver o laço social pelo laço de criar.

Assim a hostilidade de Proudon aos olhos das teorias românticas, e o seu pouco gosto pela grande parte das obras que se reclamam, só puderam colocá-lo na margem dos literários do seu tempo. Inúmeros entre eles, particularmente todos os que se espalhavam pela pequena imprensa, não lhe ameaçaram os seus sarcasmos, à excepção dos limites da boa fé.

Mesmo os grandes ignoraram este Caliban filosófico, tão elogiado as suas concepções da sua linguagem e das formas de viver. Proudhon nota mesmo, por outro lado, que ele frequentou muito pouco dos seus contemporâneos. Quer estes o tenham desprezado, quer ele os tenha desprezado. Ele tem geralmente as palavras duras, injustas, para o pequeno mundo dos homens de letras que lhe é chegado a bordejar, em particular no jornalismo: “Para mim, eu vi pouco da vida destes boémias literárias, destas pinturas de amor e de virtude; eu conheço também um pouco as receitas do estilo, e eu não sou nada levado em fingimentos de J.-J. ( Rousseau ) do que dos de Balzac, J. Janin, Nodier e participantes (…) Este mundo arrasta-se, em virtude da faculdade literária, o privilégio do vício, da indelicadeza, da traição, da hipocrisia, e mesmo da intolerância: estes são os seres depravados que se idolatram, por algumas páginas em miniatura, onde se encontra a figura de algo de bom e honesto sentimentos. (…) …eu odeio estes homens, eu digo-lo sem…” ( Cadernos, III-291, 292 ).

Entre os escrivãos notórios do seu tempo, Michelet é um dos raros que Proudhon tinha frequentado um pouco, aliás, tardiamente e de forma um pouco compassada: os seus bens são tratados.

Pouco rancorosa, a boa Srª Sand desejou vê-lo, apesar de ele estar em Sainte-Pèlaige. Mas o prisioneiro recusa esta oferta. Em termos aliás, fortemente afáveis já que ele assegura aquele que ele era e será o objecto de tantos golpes vindo dele, da sua “vida e sincera admiração” ( Carta de 30 Janeiro de 1852, Fonds Sand da Bibl. Hist. da Cidade de Paris, Nº G 5244 ).

Na mesma época, e pelo mesmo motivo, Proudhon recebe também a visita de Victor Hugo, vindo para ver o seu filho Charles incarcerado no mesmo lugar. Este reencontro, certamente o último entre os dois homens é assim relatado nos Cadernos: “Eu recebi a visita do poeta Victor Hugo. Conversa bastante longa. V. Hugo é revolucionário desde os 30 anos. Ele crê que a fraternidade somente pode resolver a questão social” ( Cadernos, IV-294 ).

Nota-se o acento sarcástico sempre colocado sobre a palavra de fraternidade, e o tom geralmente condescendente desta breve anotação. Portanto, ainda que ele pinte o homem com uma miserável apreciação Proudhon tinha uma certa admiração para a obra de Hugo e, desde a monarquia de Julho, seguia com alguma curiosidade os progressos da sua orientação para com uma espécie de socialismo.

Eles tinham dado conhecimento logo quando, eleitos sobre a mesma lista complementar do Sena, eles tinham um e outro representantes do povo em 49. Os bens pareciam ter sido então sobretudo frios. De seguida um reencontro fortuito, o mesmo dia do golpe de Estado de 2 Dezembro, é relatado de forma sobretudo malévola por Hugo: ele insinua que a permissão obtida pelo prisioneiro precisamente nesta data, é devido a uma complacência significativa do poder que se colocava no lugar. A página termina assim: “Nós nos deixamos. Ele enterra-se no ombro, eu nunca mais o vi” ( História de um crime ). Nós sabemos que ele teve uma última conversa, sem dúvida depois a redacção deste texto.

Esta ruptura seca, sobre uma incompreensão recíproca, resumo e definitivo bastante bem os benefícios de Proudhon com os românticos. Da parte destes últimos uma missa à distância um pouco espantada, quando isso não foi uma ignorância condescendente. Do lado de Proudhon, a certeza que ele tinha num outro mundo e dirigia-se algures, que ele não tinha nada de comum com os literários. Atitude aos olhos do romantismo que se resume nesta interrogação, que é ao mesmo tempo uma resposta: “Temos necessidade do mal?” ( Justiça, I-261 ).

Francisco Trindade

sábado, 29 de janeiro de 2011

El Surco 23 - Janeiro/Fevereiro 2011

Já se encontra disponível a edição de número 23 do El Surco na página temporária do periódico chileno.
O editorial trata da questão "Síntese x Especifismo". Para o debate, a equipe do Surco traz um recorte do texto "La síntesis anarquista" do russo Volin.

Conteúdo
Editorial - ¿Anarquía y lucha de clases?
Artigos - El abuso y brutalidad policial, La sucia campaña de la energia limpia, Crónica de una persecución anunciada - El 2010 y la represión, e outros.
Para baixá-lo clique aqui!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Bate-papo - Experiências de um anarquista no serviço militar americano - 9 de Janeiro


Domingo
9 de janeiro
Casa da Lagartixa Preta - http://www.ativismoabc.org/
R. Alcides de Queirós, 161 – Bairro Casa Branca, Santo André (SP)

Fonte: http://bibliotecaterralivre.wordpress.com/

4° Congresso Operário Brasileiro COB-AIT - 28/30 de Janeiro

Retirado do sítio da Confederação Operária Brasileira - http://cob-ait.net/index.php/infos/49-anarcosindical/296-4o-cob-2011

Convidamos a todxs xs companheirxs:
“4º Congresso Operário Brasileiro

Aos trabalhadorxs
Interpretando a célebre máxima de que a emancipação dos trabalhadorxs será obra dos próprios trabalhadores, a Confederação Operária Brasileira resolveu celebrar o 4º Congresso Operário Brasileiro, cujas as sessões terão inicio no dia 28, 29 e 30 de janeiro, às 9 horas, Porto Alegre, RS.
Neste Congresso, cujo o tema é *105 anos de Sindicalismo Revolucionário no Brasil, Ação Direta e Solidariedade na Defesa dos Trabalhadores*, discutiremos os meios de ação e o aprofundamento do sindicalismo revolucionário como referência histórica de luta de nossa gente por bem estar e liberdade.
Convictos que só com a cooperação do maior número, mediante o esforço de nossos companheiros, é que as resoluções que nele se tomarem poderão ser levadas à prática, convidam todxs trabalhadorxs à participarem de forma coletiva das suas sessões, para que conheçam as deliberações tomadas pelos delegados de nossa organização e por conseguinte, guiados unicamente pela aspiração de libertar o trabalho do monopólio capitalista.
Companheirxs, solidariedade e união de nossa luta, compareçam ao 4º Congresso Operário Brasileiro.

Agradecemos antecipadamente, Secretaria Executiva do 4º Congresso Operário Brasileiro”

Mais informações com:
Tel: (51) 3222 9817

Federação Operária de São Paulo: fosp@cob-ait.net
Federação Operária do Rio Grande do Sul: forgs@cob-ait.net
Federação Operária de Sergipe: fose@cob-ait.net
Federação Operária de Goiás: fogo@cob-ait.net
Federação Operária Mineira: fom@cob-ait.net
Secretariado da COB-AIT: secretariado@cob-ait.net

Nossa lista aberta:
http://list.cob-ait.net/listinfo/sindicalista

Na construção do comunismo libertário através do anarcossindicalismo!

domingo, 26 de dezembro de 2010

El Surco 22 - Dezembro 2010

A mais recente edição do periódico El Surco está disponível - http://srhostil.org/elsurco/elsurco22.pdf.
Editorial - ¿Reformar al Estado, humanizar el capital? No gracias…
Artigos - ¿Enseñanza pública y popular? ¡Auto educación carajo!; Todo lo que debes saber sobre el servicio militar obligatorio; Encrucijadas e ideas anarquistas: Mucho ruido y pocas nueces; dentre outros.

Vale a pena refletir o tema do editorial que trata de greves recentes no Chile (metrô e estudantes e professores de História). O que se tem alcançado com essas greves? Reformar o Estado e humanizar o capital?, como diz o título. O texto me lembrou a polêmica travada pela imprensa entre anarcossindicalistas e anarquistas durante a Greve Geral de 1917 em São Paulo.

Boa leitura!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Hypomnemata 127

Sai com grande atraso o link para a leitura do boletim mensal do Nu-SOL referente ao mês passado. O tema? A "guerra" no Rio - "Polícia x Crime Organizado"...
Vale a pena a leitura!

http://www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php?idhypom=153

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

El Libertario 61 - Dezembro/Janeiro 2011

Já está disponível o periódico venezuelano El Libertario referentes aos meses de Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011. Ainda não li completamente, mas ainda assim, conhecendo a qualidade de suas páginas, recomendo a leitura.
Há, dentre os artigos, um pequeno e belo discurso do escritor espanhol Federico García Lorca a respeito da necessidade da cultura para o homem. Outro dia escrevo mais sobre García Lorca, um dos maiores nomes da poesia espanhola do século passado.

Para ler, baixar, clique aqui!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

El Surco 21 - Novembro 2010

A 21ª edição do periódico chileno El Surco já está disponível no sítio temporário do jornal.
Para baixar, clique aqui!

A edição traz reflexões sobre o caso dos mineiros chilenos, cidadania, o "caso bombas" (operação policial que prendeu diversos anarquistas "suspeitos" no Chile), organização e outros, além de uma entrevista com Rafael Uzcátegui.

Editorial
La tierra se traga hombres, el sistema vomita injusticia
Artículos
A las barricadas virtuales (Documento) • El ciudadano: actor polimorfo y plurivalente • Trampas, movilizaciones, solidaridad y acción: Actualización de lo sucedido en el “Caso Bombas” • Entrevista al compañero Rafael Uzcátegui • ¿Cómo pensamos la organización anarquista? • Revistas electrónicas y el fetichismo de lo alternativo • La escuela como centro de adormecimiento brutal y silencioso • Anarquistas de mi tiempo • Reseña: “Anarquistas: Presencia libertaria en Chile” • Breves: Collahuasi y Fasa: comienza una huelga y termina otra • Transaraucaria, continua la huelga • Sigue movilización en el mas •Y Más...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Agenda de eventos - Novembro 2010

Repassando os eventos noticiados neste blog para o mês de novembro:

02/11 terça-feira - 16h30
Rediscutindo o anarquismo e o sindicalismo
Palestra com Lucien van der Walt
Local: Ay Carmela - Rua das Carmelitas, 140, Metrô Sé. São Paulo. Telefone: 3104-4330.
Fonte: Black Flame

04/11 quinta-feira - 10h-18h
Seminário Centenário da Morte de León Tolstoi
Local:UFF (Universidade Federal Fluminense) Campus Gragoatá, Bloco O, 5º andar, Sala 1 (525). Niterói - São Domingos.
Fonte: http://www.ohomemrevoltado.blogspot.com/

05-07/11
1ª Feira do Livro Anarquista em Porto Alegre
Local: Espaço Libertário Moinho Negro, rua Marcilio Dias, 1463.
Fonte: http://flapoa.deriva.com.br

06/11 Sábado - 14h
Rediscutindo o anarquismo e o sindicalismo
Palestra com Lucien van der Walt
Local: Centro de Cultura Social: Rua Torres Homem 790, Vila Isabel, Rio de Janeiro. Telefone: 2520-7101.
Fonte: Black Flame

06/11 Sábado - 16h
Palestra “Foucault e a potência da retórica”, com Nildo Avelino (Doutor em Ciência Política e integrante do CCS).
Local: Centro de Cultura Social. Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República). São Paulo.
Fonte: http://www.ccssp.org

27/11 Sábado - 16h
Lançamento: Malatesta. Biografia ilustrada de um símbolo do anarquismo italiano. Desenhos de Fabio Santin, texto de Elis Fraccaro, posfácio de Nildo Avelino. Tradução de Maria Ling e Nildo Avelino. Editora Robson Achiamé [21x28cm - 106p].
Local: Centro de Cultura Social. Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República). São Paulo.
Fonte: http://www.ccssp.org

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

IV Semana de Liberdade Criativa - 18 a 23/10


Está ocorrendo nesta semana (de 18 a 23/10) a IV Semana de Liberdade Criativa no campus da Faculdade de Ciências e Letras UNESP-Assis. O evento que começou nesta segunda visa a criar e difundir uma arte na contramão da indústria cultural e está recheado de atividades para os últimos dias. Acontece na cidade de Assis, interior do estado de São Paulo e é aberto a todos!
Para maiores informações: http://semanadeliberdadecriativa.blogspot.com


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Centro de Cultura Social - Novembro/Dezembro 2010

06/11 Sábado - 16h
“Foucault e a potência da retórica”, com Nildo Avelino (Doutor em Ciência Política e integrante do CCS).

27/11 Sábado - 16h
Lançamento: Malatesta. Biografia ilustrada de um símbolo do anarquismo italiano. Desenhos de Fabio Santin, texto de Elis Fraccaro, posfácio de Nildo Avelino. Tradução de Maria Ling e Nildo Avelino. Editora Robson Achiamé [21x28cm - 106p].

04/12 Sábado - 16h
Leitura Dramática, “As Criadas” de Jean Genet. Direção de Alberto Centurião (Dramaturgo, ator e diretor de teatro, integrante do CCS).

Centro de Cultura Social
Rua General Jardim, 253 Sala 22 (próximo ao metrô República)
São Paulo

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Feira do Livro Anarquista em Porto Alegre - Novembro 2010


Nos dias 5, 6 e 7 de novembro ocorrerá uma feira do livro anarquista na capital do Rio Grande do Sul.

"Grupos como a editora Deriva, Imaginário, Imprensa Marginal, Antena Negra, Ação Antisexista, Federação Anarquista Gaúcha, entre outros coletivos e editoras, estarão participando e organizando a 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, nos dias 5, 6 e 7 de novembro, no Espaço Libertário Moinho Negro, rua Marcilio Dias, 1463. Na programação conversas em torno dos temas como "Anarquismo e Geografia", "Anarcologia e Protopia", "Feminismo e Anarquismo", lançamento de livros, filmes, exposições, oficinas, comida, confraternização...

A programação completa pode vista aqui:
http://flapoa.deriva.com.br/"

Fonte: http://www.ainfos.ca/pt/ainfos04674.html

sábado, 9 de outubro de 2010

Palestra - Anarquismo e Sindicalismo na África do Sul - 10/10

Com muito atraso, novamente, divulgo a palestra sobre o movimento Anarquista e o sindicalismo revolucionário na África do Sul.
O evento acontecerá amanhã (domingo - 10/10), 16h, no Espaço Ay Carmela, em São Paulo.

Rua das Carmelitas, 140, Metrô Sé
(paralela à Rua do Carmo, travessa da Rua Tabatinguera)
Telefone: 3104 4330

Organização: Federação Anarquista de São Paulo (FASP)
http://www.anarquismosp.org

Fonte: A-Infos

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Por que os Anarquistas não votam? - Élisée Reclus

Segue abaixo, mais um texto a cerca do voto. Desta vez, é do geógrafo francês Elisée Reclus. Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/reclus.htm

Por que os anarquistas não votam?
Elisée Reclus
Tradução de Mario Bresighello


TUDO o que pode ser dito a respeito do sufrágio pode ser resumido em uma frase:

Votar significa abrir mão do próprio poder.

Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa entregar a uma outra pessoa a própria liberdade.

Chamado monarca absoluto, rei constitucional ou simplesmente primeiro ministro, o candidato que levamos ao trono, ao gabinete ou ao parlamento sempre será o nosso senhor. São pessoas que colocamos "acima" de todas as leis, já que são elas que as fazem, cabendo-lhes, nesta condição, a tarefa de verificar se estão sendo obedecidas.

Votar é uma idiotice.

É tão tolo quanto acreditar que os homens comuns como nós, sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. E é exatamente isso que acontece. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros. É muito provável que se acredite que a inteligência destas pessoas cresça na mesma proporção em que aumenta a variedade dos assuntos com os quais elas são obrigadas a tratar.

Porém, a história e a experiência mostram-nos o contrário.

O poder exerce uma influência enlouquecedora sobre quem o detém e os parlamentos só disseminam a infelicidade.

Nas assembléias acaba sempre prevalecendo a vontade daqueles que estão, moral e intelectualmente, abaixo da média.

Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade.

Certamente os eleitores acreditam na honestidade dos candidatos e isto perdura enquanto durar o fervor e a paixão pela disputa.

Todo dia tem seu amanhã. Da mesma forma que as condições se modificam, o homem também se modifica. Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos, transforma-se em seu senhor.

Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte!

A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.

Por isso, não abandone sua liberdade.

Não vote!

Em vez de incumbir os outros pela defesa de seus próprios interesses, decida-se. Em vez de tentar escolher mentores que guiem suas ações futuras, seja seu próprio condutor. E faça isso agora! Homens convictos não esperam muito por uma oportunidade.

Colocar nos ombros dos outros a responsabilidade pelas suas ações é covardia.

Não vote!

Bakunin e Malatesta e o voto e o sistema eleitoral...



Durante essa semana senti a necessidade de divulgar dois textos de grandes nomes do Anarquismo sobre o voto popular e as eleições; Bakunin e Malatesta. O primeiro, “A ilusão do sufrágio universal”, foi escrito por Bakunin e continua atual, apesar de ter sido escrito na Suíça há cerca de 150 anos. Para ler o texto integral clique aqui; abaixo segue alguns trechos do texto:

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.
[...]
Quem fala de poder político, fala de dominação.
[...]
É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. [...]

Desconheço o autor da tradução e notei alguns erros na transcrição. Não quero, desta forma, julgar o trabalho de ninguém, mas quero deixar claro que é importante que as idéias sejam expostas de forma clara e até certo ponto de acordo com as normas gramaticais. É necessário que sejamos levados a sério.

O outro texto do qual selecionei alguns trechos é “A política parlamentar no movimento socialista”, de Errico Malatesta, que também fala da farsa da representatividade política. O artigo de Malatesta apesar de ser maior que o do Bakunin é um pouco mais datado, por conter mais informações no texto sobre a o contexto do autor.
Encontrei neste artigo, os mesmos problemas que no do Bakunin, com relação aos erros de transcrição. Para ler o texto integral, clique aqui. Eis alguns trechos interessantes:


O Sufrágio Universal não é um instrumento de emancipação social, mas um meio de submissão ao Capital.
[...]
Há países onde o sufrágio universal existe e funciona há muito tempo; há outros que viram estabelecer, depois abolir, em seguida restabelecer, depois abolir, em seguida restabelecer novamente, alternadamente, o sufrágio universal; e as condições morais e materiais das massas permaneceram sempre as mesmas...
[...] o sufrágio universal nunca e em nenhum lugar serviu para melhorar o destino dos trabalhadores.
[...]
Tanto nas repúblicas quanto nas monarquias onde ele existe, as Câmaras são compostas de proprietários, advogados e outros privilegiados, assim como nos países onde o sufrágio é mais ou menos restrito às classes possuidoras e cultas. E nestes países como nos outros, as leis que as Câmaras fazem, servem apenas para ratificar a exploração e defender os exploradores.
[...]
Na teoria, o sufrágio universal é o direito da maioria de impor sua vontade à minoria. Este pretenso direito é uma injustiça porque a personalidade, a liberdade e o bem-estar de um único homem são tão dignos de respeito, tão sagrados quanto aqueles de toda a Humanidade.
Aliás, não há nenhuma razão para crer que a verdade, a justiça, o interesse comum encontrem-se sempre do lado da maioria: os fatos provaram, ao contrário, que é geralmente o inverso... Se todos os homens, exceto um, estivessem satisfeitos de ser escravos e de se submeter, sem necessidades naturais, a todos os tipos de sofrimentos, esse teria razão de se revoltar e de exigir liberdade e bem-estar. Os votos, o número, não decidem nada, nenhum direito se perde, nenhum direito se cria por eles.
Uma sociedade igualitária deve estar fundada sobre o livre e unânime acordo de todos os seus membros. Mesmo numa sociedade socialista, na qual tivesse coompletamente desaparecido a opressão e a exploração do homem e onde o princípio de solidariedade regesse todas as relações humanas, é verdade que poderia acontecer, e aconteceria com toda a certeza, que se produzissem casos onde o recurso ao voto seria necessário, ou pelo menos cômodo. Esses casos se tornariam cada vez mais raros na medida em que a ciência da sociedade descobrisse e tornasse evidentes as soluções que corresponderiam exatamente aos diferentes problemas da vida coletiva.
Mas enfim, haverá sempre casos em que diversas soluções se apresentarão e onde será necessário de se limitar a um expediente mais ou menos arbitrário, sem que seja possível ou julgado oportuno dividir-se em tantas frações quanto existam soluções preferidas. O mais rápido, nesses casos, é que a minoria se adapte ao desejo da maioria. Bem, votar-se-á então, provavelmente; mas num caso como desse tipo, o voto não é um princípio, ele não é um direito nem um dever mas um pacto, uma convenção entre associados!
[...]
Com efeito, cada eleitor só nomeia um deputado, ou um pequeno número de deputados sobre várias centenas que compõem habitualmente uma Assembléia. É verdade que, mesmo quando os eleitores vêem seu próprio candidato ser eleito, sua vontade, que durante as eleições já não contava praticamente nada, seria representada por um único deputado, que, ele próprio, tem um papel mínimo na Câmara. A Câmara, tomada em seu conjunto, não representa de modo algum a maioria dos eleitores. Cada um dos deputados é eleito de um certo número de leitores mas o corpo eleitoral, enquanto totalidade, não é representado.
Assim, ocorre que fatos que concernem, por exemplo, tal localidade ou tal corporação devem ser julgados por uma assembléia de pessoas estranhas a essa localidade ou a essa corporação, ignorantes ou indiferentes em relação a seus interesses e onde um único, ou um pequeno número, pode, com maior ou menor razão, representar um mandato recebido dos próprios interessados. [...]
[...]
Enquanto os deputados, distantes do povo, desinteressados de suas necessidades, impotentes em satisfazê-las mesmo que quisessem, acabam se ocupando apenas da consolidação e do crescimento de seu próprio poder, da obtenção constante de novos subsídios e, finalmente, da liberação de toda dependência para com o povo [...]

Que dizer das condições reais nas quais o sufrágio universal é exercido numa sociedade onde a maioria da população, atormentada pela miséria e embrutecida pela ignorância e pela superstição vê sua existência depender de uma pequena minoria que detém a riqueza e o poder? Em regra geral, o eleitor pobre não é e não pode ser capaz de votar de modo consciente e livre, votar como quiser.
[...]
É certo que os camponeses e os operários, mesmo os menos esclarecidos, sabem mais do que os doutores em economia política quando se trata de seus interesses diretos, das coisas que eles vêem e tocam, de se seu trabalho, de sua casa, de sua vida quotidiana. Eles podem facilmente ter uma opinião sobre as questões que lhes concernem, quando elas são apresentadas de modo simples e natural. Eles saberiam dizer sim ou não se querem que os patrões, sem sair de suas cadeiras, retirem deles a melhor parte do fruto de seu trabalho. Eles saberiam dizer se querem ou não ser soldados. Saberiam como empregar a riqueza de sua comuna ou de sua nação se eles possuíssem todas as informações necessárias sobre os produtos disponíveis, sobre a capacidade de produção e sobre as necessidades de todos os seus concidadãos. Saberiam como ensinar uma profissão aos filhos... E tudo aquilo que não soubessem ou não compreendessem, logo aprenderiam se tivessem que se ocupar eles próprios de tudo isso, para responder a uma necessidade prática.
Mas se os problemas que lhes apresentam não os concernem, ou se são complicados por interesses que lhes são estranhos a tal ponto que eles não possam mais reconhecê-los; se as coisas mais simples são obscurecidas por uma terminologia técnica que faz da política uma ciência oculta; se eles não têm o tempo de se informar e de refletir, e se não se sentem motivados a fazer porque sabem muito bem que não cabe a eles decidir e que há os que pensam por eles, nesse caso então seu voto será inconsciente, como é geralmente o caso.