Mostrando postagens com marcador literatura brasileira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura brasileira. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Lima Barreto - Leitura de Jornais

Em tempos de euforia gerada pelos eventos vindouros (Copa do Mundo, Olimpíadas), a racionalização dos gastos é ignorada. Que outra finalidade pode ter a verba pública senão a de locupletar aos digníssimos representantes do povo? Isso, no plano mais evidente da rapinagem. Fora dele, há a especulação imobiliária que vai traçando paisagens, adotando perspectivas qual um pintor naturalista e definindo onde cada um vive ou vai viver, aonde cada um anda ou vai andar, onde cada um dorme ou vai dormir. São muitos os problemas com os quais nos depararemos nessa longa caminhada de 5, 6 anos. Vem a calhar um texto barretiano. Lima Barreto (1881-1922), escritor para quem o significado importava mais do que as acrobacias fonéticas ou lingüísticas, publica o texto "Leitura de jornais" um ano antes de sua morte na antiga revista ilustrada Careta. Em 19 de março de 1921, sai o texto irônico que comparava a atitude de alguns brasileiros com a adotada na Argentina no que concerne ao gasto do dinheiro público, quando ainda se vivia uma acirrada disputa entre as capitais dos dois países para saber qual seria a mais moderna e européia. Os tempos eram outros, já os problemas... 


Leitura de Jornais


Afonso Henriques de Lima Barreto em 1919
Não há dúvida alguma que o embelezamento das cidades sobreleva as questões de higiene e de assistência que elas também reclamam. É isto que se tem visto em toda a parte, principalmente nas capitais de tiranos asiáticos, onde se erguem monumentos maravilhosos de mármore e ouro, de ônix e porcelana, de ouro e jaspe, em cidades que não têm água nem esgotos e o grosso da população habita choupanas miseráveis.

Essa regra geral das administrações asiáticas obedece a certo critério de origem divina, em que se estatui que o senhor e os senhores têm direito a tudo; e os restantes, no máximo, a vida, e são obrigados a pagar impostos para gáudio daqueles outros.

Mais ou menos, em obediência a essa regra, foi que se ergueram tantos monumentos célebres no mundo inteiro, desde o “Palácio do Serralho”, em Constantinopla, até o Taj-Mahal, de Agra, na Índia, com a moldura de uma cidade de miseráveis.

Com o advento da democracia nos países de origem europeia, especialmente no nosso, depois da proclamação da república, essa regra asiática tem sido mais ou menos obedecida, com o caráter cenográfico, que nos é próprio.

Ainda há dias, lendo os jornais desta cidade tive ocasião de verificar essa feição característica da nossa mentalidade administrativa.

O excelente O Jornal, nos primeiros dias deste mês, lamentava que a municipalidade ainda não houvesse levado a efeito, a construção de um stadium, no Leblon.

Reproduzia a planta respectiva que a edilidade, com grande menosprezo pelos interesses vitais do povo, tinha atirado ao pó dos arquivos. Lastima-se o redator da notícia assim: “Diante dessas informações perguntamos: Por que se abandonou assim um projeto sob todos os títulos grandioso, para se fazer a concessão de hoje, que tantos comentários vão provocando?”.

Não há dúvida alguma que tal abandono é motivo de lástima a mais profunda, porquanto já temos para realçar semelhantes grandiosos projetos dessa natureza, os magníficos repoussoirs da Favela, do Salgueiro, do Nheco e outros em muitos morros e colinas que são descritos por um jovem jornal desta cidade, O Dia, de 3 do corrente, desta maneira:
Encontram-se extensos aldeamentos de casas construídas com folhas de latas de gasolina, ripas de caixas de batata e caixões de automóveis. (...) Por essas barracas, que seria impossível de qualificar de casebres, porque nelas nenhum homem rico abrigaria o seu cão de estima, cobram-se de 30$ a 50$000 por mês e até mais.
Convém notar que essas maravilhas nada custaram à prefeitura, e, nem ao menos, exigem-lhe o trabalho de cobrar-lhes impostos ou dízimos quaisquer.

São puras criações de iniciativa particular que se mostra assim solícita para abrigar os pobres e dotar a cidade com essas curiosas construções, dignas de Hué ou de São Paulo de Luanda.

Buenos Aires, que não nos deixa dormir, tendo lá cousa semelhante, tratou de acabar com tão pitorescas excrescências. Que fez? Construiu pistas ou arenas de jogos atléticos? Não: construiu casas, conforme informa o último dos jornais citados, que ele descreve desta forma:
Essas casas, construídas com armações de madeira ou ferro, oferecem aos seus habitantes o melhor conforto, pois todas elas, como se pode verificar nos projetos do Senhor Ayerza, dispõem de ótimas acomodações, água corrente, banheiros, salas, luz e ventilação, enfim, tudo o que se torna necessário ao bem-estar dos moradores.
Está se vendo por aí que os nossos vizinhos não têm o espírito olímpico; mas, uma alma cheia de baixas e subalternas preocupações burguesas.

A nossa origem divina, ou melhor: a origem divina dos nossos dirigentes não lhes permite ter dessas cogitações práticas e comuns de casas para desafortunados.

Não seria possível que o sultão de Mossul fosse se preocupar com casas para o seu povo; mas, quando a bexiga irrompe, sabe ele da existência de uma plebe necessitada na sua capital, e, então, manda-a vacinar a toda pressa, sob pena de cortar a cabeça os recalcitrantes, com medo que a difusão da peste venha enfear as sultanas do seu mimo.

São essas as considerações que me vieram ao fazer a leitura, com intervalo de dias, de dous grandes jornais cariocas que já citei.

Por aí, vim a concluir que a nossa administração ainda se guia pela estética urbana dos rajás asiáticos e que, sob este aspecto, ela é absolutamente original nestas américas e talvez nas európicas.

Os seus arquivos, o que faz supor a descoberta do plumitivo do O Jornal, devem regurgitar de planos de prados, coliseus, frontões, boliches, teatros, palácios, etc. etc.

Entretanto, ela não presta atenção nos meios de enfear e emporcalhar mais a Favela, embora os seus propósitos de embelezamento de Copacabana e arredores peçam logicamente, de acordo com a sua doutrina calcutaense, a transformação daquele e outros morros que circundam a cidade, na cousa mais repugnante deste mundo...

A leitura dos jornais é sempre utilíssima, como já disse o outro.
L. B.
Careta 19-03-1921

A grafia de estrangeirismos foi mantida como aparece no original.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Escritores Libertários

Texto escrito por Ideal Peres, publicado em Letra Livre n.8, de agosto de 1995, e retirado de http://www.nodo50.org/insurgentes/textos/brasil/07escritoreslibert.htm

Em diferentes épocas escritores brasileiros estiveram envolvidos com o anarquismo. Alguns com participação ativa; outros através de seus escritos e, finalmente, os que adotaram posição individualista.

Relembramos Afonso Schmidt, na juventude participante das redações dos jornais libertários. Deixou obra no gênero poesia, teatro, romance, contos. Harmonia é um dos contos literalmente anarquista e, também, o romance Colônia Cecília, em que misturando ficção e realidade provocou enorme desinformação, só recentemente sanada através de pesquisas históricas. Assinalamos o Dr. Fábio Luz, colaborador assíduo da imprensa libertária, introdutor do "romance social" em nossas terras com o livro Ideólogo. Produziu uma série de romances, peças de teatro, estudos científicos e pedagógicos. Maria Lacerda de Moura, injustamente esquecida, competente antifacista de primeira hora, divulgou teses sobre o amor livre e a liberação feminina, que tantos arrepios e indignação provocaram no Brasil vetusto e cavernoso dos anos 30. Dr. Martins Fontes, santista, poeta parnasiano, deixou entre sua enorme produção poética, inúmeras de conteúdo libertário, sem falar em suas conferências assinaladas no livro Fantástica, do qual destacamos a sobre Kropotkin. José Oiticica, figura de proa do movimento anarco-sindicalista, polemista destroçador, inigualável nos escritos satíricos e nas cartas abertas dirigidas aos figurões e manda-chuvas da época, deixou infindável produção de escritos políticos dispersos nos jornais diários do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, citamos Avelino Foscolo, colaborador da imprensa libertária, escreveu vários romances como O Mestiço, Vulcões, A Capital e que só recentemente estão sendo reeditados.

Todos os mencionados mereceram pouquíssimo ou nenhum reconhecimento pela literatura oficial. Entretanto há duas excessões: Campos de Carvalho e Lima Barreto. Em entrevista ao jornal O Globo, em 08/04/95, respondendo a pergunta sobre o vigor libertário de seus livros, onde seus personagens sempre se voltam contra alguma autoridade, afirmou: "Eu sempre fui anarquista, liberto de qualquer dogma". Sabemos que Campos de Carvalho foi, durante sua juventude, colaborador dos jornais libertários A Plebe e A Lanterna. Hoje, reconhecido como escritor importante, teve romances renovadores como A lua vem da Ásia, A vaca do nariz sutil e A chuva imóvel, reeditados pela Editora José Olimpio. Campos de Carvalho é anarquista individualista (Nota do Libera...: Campos de Carvalho faleceu em São Paulo no dia 10 de abril de 1998, aos 82 anos).

Lima Barreto teve seus méritos reconhecidos, porém só depois de seus falecimento. É dele que vamos nos ocupar mais extensamente.

Lima Barreto, anarquista

Afonso Henriques de Lima Barreto, autor genial de Clara dos Anjos, Recordações de Isaías Caminha, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, etc., mulato de temperamento tímido, porém irreverente e desabusado em seus escritos. Em geral trajava roupas amarfanhadas, sapatos empoeirados, garofinha a subir indiscreta pelas orelhas e colarinho encardido. Palheta equilibrada no alto da cabeça. Corpo exalando azedume do suor curtido nos subúrbios proletários onde sem opção habitava.
Freqüentador contumaz de tendinhas encardidas, se afogava em pinga com Fernet, na tentativa de fugir da grande tragédia da sua existência: o pai doido, a miséria em que a duras penas sobrevivia, a cor, a indiferença social, a impossibilidade de mobilizar seu potencial criativo.
Certa feita, advertido de que a cachaça era prejudicial a literatura, replicou que o único prejuízo era a burrice.
Reprovado por três vezes por Licínio Cardoso na cadeira de Mecânica Racional, abandona os estudos de engenharia e efetua concurso para burocrata do Ministério da Guerra. Nessa repartição encontra Domingos Ribeiro Filho, anarquista declarado, atuante nos meios libertários e que o teria influenciado teoricamente.

O movimento anarco-sindicalista começa a crescer. E, 1906 realiza-se o 10 Congresso Operário Brasileiro, no Rio de Janeiro. Com o grupo de intelectuais anarquistas, entre os quais Domingos Ribeiro, Fábio Luz, Curvelo de Mendonça, Elísio de Carvalho, Lima Barreto lança a revista Floreal, de curta existência. Em 1913 é realizado o 20 Congresso Operário Brasileiro, que mobiliza o escritor. Em Lima Barreto, sob a carapaça de solitário, tímido, introvertido, subsistia um espírito fino, alma sensível, inteligência desperta, vigoroso talento pronto para explodir no combate as injustiças sociais, aos desmandos da polícia e a exploração dos poderosos. E isto o fez aderir de vez aos ideais anarquistas.

A partir do ano de 1914 crescem as lutas operárias e, conseqüentemente, a repressão policial. Levas de anarquistas são presos e atirados como fardos em navios para a Europa. Lima Barreto coloca resolutamente sua pena a favor dos oprimidos, proletários e anarco-sindicalistas.

Trilhando as posições libertárias zurze feroz a guerra, o militarismo, a opressão social, o patriotismo, a papuchada político-partidária, o serviço militar obrigatório, o nacionalismo.

Troça do falso feminismo, chá com torradas das elites endinheiradas, sequiosas de se igualarem aos homens nos seus piores vícios.

Dardejou o ópio do futebol, o tráfico de influências, os poderosos do momento, o imperialismo, a falta de caráter nacional.

Compreendendo precocemente que a linguagem e a gramática se tornam instrumentos da opressão e dominação de classes, investiu decidido contra os retóricos tipo Rui Barbosa, parnasianos e simbolistas cultuadores de uma língua que impedia a expressão da vida real.

Das centenas de páginas de seus romances, fufam em turbilhão seus personagens simples, toscos, suburbanos, talhados vigorosamente por sua escrita rústica, direta, oxigenante, libertadora.

As publicações libertárias da época, A Voz do Trabalhador, A Patuléia, A Plebe, A Lanterna, O Debate, sem falar das revistas e dos jornais diários, estão recheados de suas crônicas nos mais de vinte pseudônimos com os quais firmou sua posição anarquista.

Alguns escribas marxistas de visão estrábica se entusiasmaram com a defesa da revolução Russa feita por Lima Barreto. A esses partidários do "socialismo camisa de força", entretanto, diremos que todo libertário a defendeu inicialmente, por se tratar de tentativa de transformação social, feita pelo povo sem as diretrizes ditatoriais que posteriormente tomou.

Quanto ao maximalismo que defendeu, era, nada menos, que a interpretação anarquista da derrubada de um regime despótico e a instalação da autogestão generalizada. Para comprovação é suficiente ler o que escrevia na época.

Quando da grande greve de 1917, em São Paulo, novamente sai Lima Barreto em defesa dos anarquistas presos e deportados, após cessado o movimento.

Em novembro de 1918 explode no Rio um movimento que visava a derrubada das instituições e o estabelecimento de um regime socialista. A rebelião fracassa e centenas de anarquistas são presos e processados. Lima Barreto novamente se coloca em defesa dos revolucionários atacando violentamente o chefe de polícia Aurelino Leal, a quem acoima de "Trepoff barbante". O escritor estava, naquele momento, internado em um hospital.

Lima Barreto não foi orador de comício, agitador de assembléias, organizador de greves, conspirador de movimentos visando derrubadas de autoridades, freqüentador de grupos operários e sindicatos; porém, através de sua pena esteve coerentemente com o movimento anarco-sindicalista e sempre com ele.

Ideal Peres

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O ceguinho podólatra Glauco Mattoso, um livre-pensador


Já se vão alguns anos desde a primeira vez que li algo escrito por Glauco Mattoso (1951). Suas colunas na revista (posso dizer petista?) Caros Amigos ou seu livro iniciático à poesia marginal da época da Ditadura (O que é poesia marginal), ambos foram lidos, por mim, há pelo menos cinco anos. Faz mais tempo ainda desde a última vez que o vi na TV, no extinto programa Musikaos da claudicante TV Cultura.

Li recentemente muitos sonetos do Glauco Mattoso (pseudônimo que alude ao mesmo tempo à doença congênita glaucoma e ao poeta barroco Gregório de Matos) em seu sítio pessoal, nas páginas que reune parte da obra poética, e em sua coluna no Portal Cronópios.

Além da tara por pés e solas, e sua postura de eterno fudido (em todos os sentidos), ele também se posiciona com relação à política e aos políticos. Dentre outras coisas, é do que tratam os sonetos abaixo:

#17 Sádico [1999]

Legal é ver político morrendo
de câncer, quer na próstata ou no reto,
e, p'ra que meu prazer seja completo,
tenha um tumor na língua como adendo.

Se for ministro, então, não me arrependo
de ser-lhe muito mais que um desafeto,
rogar-lhe morte igual à que um inseto
na mão da molecada vai sofrendo.

Mas o melhor de tudo é o presidente
ser desmoralizado na risada
por quem faz poesia como a gente.

Ele nos fode a cada canetada,
mas eu, usando só o poder da mente,
espeto-lhe o loló com minha espada.


#18 MASOQUISTA [1999]

Político só quer nos ver morrendo
na merda, ao deus-dará, sem voz, sem teto.
Divertem-se inventando outro projeto
de imposto que lhes renda um dividendo.

São tão filhos da puta que só vendo,
capazes de criar até decreto
que obrigue o pobre, o cego, o analfabeto
a dar mais do que vinha recebendo.

Se a coisa continua nesse pé,
acabo transformado no engraxate
dum senador qualquer, dum zé mané.

Vou ser levado, a menos que me mate,
à torpe obrigação de amar chulé,
lamber feito cachorro que não late.


#25 POLÍTICO [1999]

A esquerda quer mudança no regime:
trocar todas as moscas sobre o troço;
mais gente repartindo o mesmo almoço,
p'ra ver se a humanidade se redime.

A situação não quer mexer no time:
o jogo da direita é o mesmo osso,
o mesmo cão, e nada de alvoroço,
mantendo o status quo que nos oprime.

Um cego como eu, politizado,
consciente de não ser tão incapaz
que não possa escolher qual é meu lado;

P'ra mim, desde que seja dum rapaz
o pé pelo qual quero ser pisado,
direito como esquerdo, tanto faz.



O gosto musical do poeta chama a atenção; rockabilly, punk rock e outras vertentes do rock, além do ska fazem parte de suas preferências; as quais compartilho. Há poemas que mencionam (julgam) bandas como Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks, Dead Kennedys, Exploited, Ramones, Stiff Little Fingers, Sham 69, Stray Cats, The Macc Lads, The Specials, Toy Dolls e outras tantas. Em vez de ficar no lugar comum da classe letrada, a MPB, o bardo enaltece o rock'n'roll sem frescura.

A preferência musical é apenas uma das facetas dessacralizadoras de Glauco, que já foi chamado de marginal, experimental e maldito; rótulos que prontamente assumiu.


#43 VANGUARDISTA [1999]

Vanguarda é classicismo, e a prova disso
está nos manifestos: em que pese
o mau comportamento, viram tese,
tratados como o texto mais castiço.

Não nego que elas prestam bom serviço,
mostrando algo de novo que se preze.
O mal é quando espalham catequese,
querendo impor que o resto está cediço.

Aqui nem há razão p'ra que me queixe:
Quer seja ou não vanguarda ou velha guarda,
não deixo de vender meu mixo peixe.

Não viso academia, chá nem farda;
só peço a cada membro que me deixe
lamber seu pé com minha língua barda...


#44 MALDITO [1999]

O veio subterrâneo e fescenino
do qual Zé Paulo Paes foi bandeirante
tem repertório altíssimo e abundante
que vai de Marcial até Aretino.

Na língua portuguesa já declino
três nomes do listão mais importante:
Bocage, Lagartixa e o infamante
Gregório, véi de guerra, esse menino!

Nem penso em me incluir nessa caterva,
até porque meu vício é bem menor.
Quem for mais perspicaz na certa observa:

Aquilo que o Mattoso faz melhor
é só o que a sorte cega lhe reserva:
tirar leite de pé, lamber suor.


#45 MARGINAL [1999]

Assim como o menor abandonado
converte-se bem cedo no infrator,
também na poesia há muito autor
rebelde só porque ficou de lado.

Os jovens querem dar o seu recado
do modo mais avesso e transgressor,
até chegar num ponto em que o louvor
consagra todo o coro amotinado.

O fato é que o legítimo indigente
é quem fica isolado na conversa
enquanto as outras partes fazem frente.

Me sinto assim. A turma já dispersa
ao ver que meu assunto é o pé, somente.
O tema é marginal, e vice-versa.


Notem que no soneto “Maldito”, o sujeito-lírico se insere numa tradição que conta com Aretino, Marcial, Gregório de Matos, Bocage e Lagartixa (Laurindo Rabelo). Essa tradição seria o veio subterrâneo da literatura, a literatura fescenina.

As informações abaixo, sobre o poeta Mattoso e sua arte, foram retiradas do já mencionado sítio pessoal.

Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias. Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Após cursar biblioteconomia (na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, bacharelando-se em 1972) e letras vernáculas (na USP, sem concluir), ainda nos anos 1970 participou, entre os chamados "poetas marginais", da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário "Jornal Dobrabil" (trocadilho com o "Jornal do Brasil" e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como "Lampião" (tablóide gay) e "Pasquim" (tablóide humorístico), além de periódicos literários como o "Suplemento da Tribuna" e as revistas "Escrita", "Inéditos" e "Ficção".

Durante a década de 1980 e o início dos anos 1990 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (gibis "Chiclete com Banana", "Tralha", "Mil Perigos" e outros, mas não deve ser confundido com o cartunista Glauco Villas Boas) até a música (revistas "Somtrês", "Top Rock"), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no "Jornal da Tarde", ensaios na "Status" e na "Around"), e publicou vários volumes de poesia e prosa.

Na década de 1990, com a perda da visão, abandonou a criação de cunho gráfico (poesia concreta, quadrinhos) para dedicar-se à letra de música e à produção fonográfica, associado ao selo independente Rotten Records.

Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do século, a produzir poesia escrita e textos virtuais, seja em livros, seja em seu sítio pessoal ou em diversas revistas eletrônicas ("A Arte da Palavra", "Blocos On Line", "Fraude", "Velotrol", "Capitu", "Cronópios", "GLX") e impressas ("Caros Amigos", "Outracoisa", "G Magazine", "Discutindo Literatura"). Jamais deixou, entretanto, de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente incorretos (violência, repugnância, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de "poeta maldito" e lhe inscrevem o nome na linhagem dos autores fesceninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire, Sade ou Genet.

Em colaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um prêmio Jabuti em 1999. Nesse terreno bilíngüe GM tem-se dedicado a outros autores latino-americanos, como Salvador Novo e Severo Sarduy, e tem sido traduzido por colegas argentinos, mexicanos e chilenos.

Em vídeo, GM foi entrevistado ou convidado, entre outros, dos programas "Metrópolis", "Vitrine", "Fanzine", "Provocações", "Entrelinhas", "Letra Livre", "Almanaque Educação", "Manos e Minas", "Matéria Pública" e "Musikaos" (TV Cultura), "Sem Frescura" e "Palavrão" (Canal Brasil), "Circular" e "Saca-Rolha" (Rede 21), "Todo seu" (TV Gazeta), "Saia Justa" (Rede Mulher), "Literatura" (redes SENAC e Educativa) e "Jogo de Idéias" (Itaú Cultural/TV-PUC).

Segundo Pedro Ulysses Campos, "A poesia de Glauco Mattoso pode ser dividida, cronologica e formalmente, em duas fases distintas: a primeira seria chamada de FASE VISUAL, enquanto o poeta praticava um experimentalismo paródico de diversas tendências contemporâneas, desde o modernismo até o underground, passando, principalmente, pelo concretismo, o que privilegiava o aspecto gráfico do poema; a segunda fase seria chamada de FASE CEGA, quando o autor, já privado da visão, abandona os processos artesanais, tais como o concretismo dactilográfico, e passa a compor sonetos e glosas, onde o rigor da métrica, da rima e do ritmo funciona como alicerce mnemônico para uma releitura dos velhos temas mattosianos (a fealdade, a sujidade, a maldade, o vício, o trauma, o estigma), reaproveitando técnicas barrocas e concretistas (paronomásia, aliteração, eufonia e cacofonia dos ecos verbais) de mistura com o calão e o coloquialismo que sempre caracterizaram o estilo híbrido do autor. A fase visual vai da década de 1970 até o final dos anos 1980; a fase cega abre-se em 1999, com a publicação dos primeiros livros de sonetos."


Para encerrar, cabe aqui informar que a partir de Janeiro de 2009, o autor tem escrito conforme as normas ortográficas de dois séculos atrás. Para ler seus textos escritos desta forma, basta acessar sua coluna no Portal Cronópios e seus últimos sonetos.

Fiquem com mais dois sonetos do ceguinho.

#190 REDUNDANTE [1999]

Pediram-me um escândalo, e é p'ra já.
Malversação de fundos? Nada disso.
O seio da modelo, que é postiço,
também já não excita a língua má.

A droga nas escolas? Ninguém dá
a mínima importância ao desserviço.
Seqüestro de empresário? Algum sumiço?
Remédio adulterado? Quá! Quá! Quá!

A fraude eleitoral virou rotina.
As contas no exterior não causam pasmo.
Ninguém estranha o cheiro da latrina.

Até Matusalém já tem orgasmo!
Só resta a comentar, em cada esquina,
que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!


#2349 PARA UM IMAGINÁRIO MORTUÁRIO (III) [16/3/2008]

E do Municipal? Muito se narra,
mas esta me contaram que é verdade.
O prédio, certa noite, um punk invade,
disposto a ver fantasma até na marra!

Silêncio. Tudo escuro. A quem por farra
entrara no teatro, persuade
a mágica atmosfera de vaidade
à qual o artista, em vida, em vão se agarra.

O punk, então, no palco vê que o Mário,
o Oswaldo e os outros foram o que, agora,
quer ele ser: rebelde e libertário...

Mas cada modernista que ali chora
a efêmera inscrição no calendário
lamenta não ser novo como outrora...

NOTA: Refere-se, o eu-lírico, à Mário de Andrade e Oswald de Andrade, nomes centrais do Movimento Modernista, eternizado na Semana de 1922.