quarta-feira, 14 de abril de 2010

Ghassan Ali, um comunista libertário na Frente Popular de Libertação da Palestina


O texto abaixo foi retirado do sítio Anarkismo.net, que é uma espécie de portal anarquista com informações, notícias, discussões e ensaios a respeito do anarquismo publicados em todo o mundo. O portal é de tendência plataformista. A entrevista com Ghassan Ali é significativa por mostrar a presença de um anarquista no conflito envolvendo Israel e a Palestina, assim como nos problemas internos palestinos.
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A presente entrevista foi realizada por Nicolás Pasadena para a edição de fevereiro do periódico francês Alternative Libertaire (que corresponde à organização de mesmo nome). Essa edição reuniu um dossiê a respeito da causa palestina e pode ser visto no seguinte link: http://www.anarkismo.net/article/16104 (Nota do tradutor). [English] [Français] [Castellano] [Italiano]

Ghassan Ali, um comunista libertário na Frente Popular de Libertação da Palestina

Ghassan Ali é um refugiado da terceira geração. Seus avos foram expulsos de seu povoado na atual Israel. Ele e seus pais nasceram em campos de refugiados na faixa de Gaza. Ainda menino lançou pedras na primeira Intifada (1987-1993). Recorda sua trajetória para Alternative Libertaire e explica seu ponta de vista como comunista libertário dentro da FPLP[1] e as perspectivas que vislumbra para a Resistência.

Qual é a situação em Gaza desde a guerra de janeiro de 2009?

Gaza ainda permanece em um impasse. A situação humanitária continua degradando-se. O bloqueio imposto por Israel e pela comunidade internacional nos enclausurou neste gueto, onde as pessoas têm de fazer frente à destruição, a fome e a catástrofe sanitária. Por volta de 40.000 casas e edifícios ficaram destruídos e seus habitantes, que agora vivem em acampamentos, passaram assim seu primeiro inverno.

A situação política é desesperadora. Israel continua com seu projeto colonial que visa impor suas condições ao governo estadunidense, com a União Européia a sustentando pelos bastidores. Os falcões israelenses estão ameaçando Gaza com uma nova guerra e o mundo ocidental responde colocando lenha na fogueira para a condenação de Israel proposta pela comissão de inquérito da ONU[2].

Além disso, há que se destacar a situação interna, que afeta aos palestinos mais que qualquer outra coisa. A luta fratricida é alimentada pelo Fatah e Hamas, que agem apenas pelos seus interesses particulares e suas alianças regionais e globais. O povo palestino é a única vítima destes conflitos. O panorama é desolador e marcado pelos riscos. A causa palestina nunca esteve tão ameaçada como está agora.

Como você se uniu à FPLP?

Quando era adolescente, apoiava o Fatah. Mas na época dos Acordos de Oslo estive reunido com Haydar Abdelshafi, uma importante figura da Resistência que havia presidido a delegação palestina nas conferências de paz de Madrid. Ele me proporcionou uma cópia dos Acordos de Oslo e me explicou os perigos para nossa causa. Minha consciência política começou a se desenvolver após este encontro e minha observação direta da corrupção, da injustiça social, dos encarceramentos políticos e a supressão de toda voz dissonante com a Autoridade Palestina. Durante esta época, chamada “os dias dourados do Acordo de Oslo”, aderi ao sindicato de estudantes da FPLP e logo me tornei um membro da organização.

Como caracterizaria a FPLP de 2009? Há alguma diferença entre os objetivos que proclamava e sua política real?

Nas eleições gerais de 2006, a FPLP obteve somente 3 assentos. Não obstante, está melhor situada hoje em dia devido a crescente desafeição com as políticas do Hamas e Fatah, que levam à divisão interna e à guerra civil, beneficiando dessa forma a ocupação. Mas a FPLP (e todas as forças de esquerda) estiveram vegetando durante anos e não são vistas como alternativas fortes e credíveis. Isso irá requerer importantes mudanças estratégicas.

Como comunista libertário e membro da FPLP, qual é seu ponto de vista acerca da organização?

A FPLP é fruto de uma ampla e diversa tradição. Quando foi formada (em 1967) se orientava principalmente pelo nacionalismo árabe, no entanto, em 1972 irá se identificar como marxista. Seus eixos fundamentais são dois: a luta pela libertação e pela justiça social. Atualmente está composta por maoístas e estalinistas, mas também há militantes libertários, como é o meu caso. Todos os militantes buscam fazer eco à sua voz. Como comunista libertário acredito que construir o poder popular através das lutas conjuntas é mais importante que tratar de unificar todas as forças da esquerda palestina: unir debilidades não redunda necessariamente em uma maior força e efetividade. Para jogar um papel importante em nosso futuro, a FPLP deveria olhar o seu passado: por exemplo, as experiências dos comitês populares durante a primeira Intifada, que criaram estruturas educativas, sociais, culturais e econômicas. Escolas populares substituíram aquelas fechadas pela ocupação e redes cooperativas substituíam os empregos que se perdiam em Israel. Foi uma luta muito efetiva, a experiência agrupou todo o povo: homens, mulheres e crianças em cada povoado e em cada campo de refugiados. Sim, era possível falar de uma ação comum da esquerda.

O que você poderia nos dizer sobre as atuais relações entre Hamas, a FPLP e Fatah?

A FPLP sempre sustentou o seguinte princípio: “Uma luta unificada contra a ocupação e um debate democrático em torno da luta social e dos assuntos internos”. A FPLP, Fatah e Hamas buscam mudar a situação interna e de por fim a luta entre as forças da Resistência. Infelizmente, os dois pólos da direita (Hamas e Fatah) ainda estão muito marcados pelo sectarismo: “Se não é um dos nossos, está contra nós”. Ambos querem um monopólio na legitimidade política e que os demais se submetam a sua política. Após as eleições de 2006, a FPLP sustentou um enfoque claro: estamos pela unidade da resistência, pela democracia e o entendimento entre os palestinos. O que, por outro lado, vem sendo nossa orientação desde sempre. Estamos contra os encarceramentos políticos e outras violações dos direitos civis e individuais. Porque, para a FPLP, nada justifica que os palestinos se matem entre si. Estes pontos de vista tem nos acarretado problemas com os serviços de segurança tanto da Cisjordânia como de Gaza, ou seja, com ambas Autoridades Palestinas.

Qual é a atual situação dos movimentos sociais na resistência contra Israel?

Durante a segunda Intifada, que começou em 2000, a resistência organizada e armada não começou depois de três meses após o massacre de manifestantes por parte das forças israelenses. A desproporção de forças entre manifestantes desarmados e aviões de combate gerou como resposta um levantamento popular armado.

Mas o problema que subsiste ainda é de caráter estratégico e de carência de reivindicações políticas. A Autoridade Nacional Palestina insiste na via da negociação com Israel (o que tem se demonstrado como algo totalmente ineficaz) e de obediência aos Estados Unidos. No que diz respeito ao Hamas, seguem recorrendo unicamente à demagogia, alimentados pela brutalidade israelense.

No entanto, há várias iniciativas de resistência popular contra a ocupação: boicotes, manifestações contra o muro, campanhas de colheita de azeitonas por parte dos camponeses... Se os palestinos e o movimento de solidariedade internacional puderem expandir estas ações, poderiam desenvolver um papel importante na resistência à ocupação.

Acredita que estamos prestes a uma terceira Intifada?

Dada a conjuntura interna e regional, é difícil prever isto. As negociações se encontram em um ponto de morte clínica e o governo israelense não tem nenhuma intenção de conceder nada para Mahmoud Abbas, que é o última a acreditar nas negociações. Tudo é possível. A ausência de unidade nacional e a total divergência política entre as duas forças palestinas majoritárias faz com que seja difícil prever uma estratégia unitária de resistência, uma “terceira Intifada” para um futuro próximo. Mas devemos recordar também que nada previa o início das duas primeiras Intifadas.

Para finalizarmos, devemos levantar a pergunta mais espinhosa: Um Estado, dois Estados...?

Deixe-me recordar-lhe que até 1974 os palestinos reivindicavam um único Estado secular e democrático como solução. Esta demanda foi abandonada depois das pressões da comunidade internacional. Desde então, a OLP tem reivindicado um Estado palestino limitado as fronteiras dos territórios ocupados desde 1967, que correspondem a 27%do antigo Mandato palestino[3]. Desde o início das negociações para implementar as resoluções por parte de Israel. Ao contrário, os territórios do futuro Estado palestino tem sido cortados; a questão do retorno dos refugiados tem sido rechaçada; o fim da colonização foi postergado indefinidamente. Finalmente, os palestinos com cidadania israelense (em torno de 20% do total) correm o risco de serem deportados para acabar com a ameaça à “pureza demográfica do Estado judeu”.

O mais importante, na minha opinião, para todos os que residem no Mandato palestino, é terminar com o projeto colonialista de Israel e, para todos, construir um território onde todos sejam tratados por igual, independentemente de sua religião ou grupo étnico.Um único Estado democrático permitirá tornar possível este sonho, mas acredito que a correlação de forças atual não seixa margem de manobra para essa possibilidade. De qualquer forma, seja qual for o ponto de vista de cada qual a respeito deste ponto, a tarefa imediata para todos deve ser dar um fim à ocupação colonial e lutar por uma vida digna para todos, que possa oferecer esperanças às próximas gerações.


Entrevista de Nicolás Pasadena (AL 77)
Tradução do francês para o castelhano de ALB Noticias e do castelhano para o português por: Daniel Augusto de Almeida Alves.


Notas:
1. Frente Popular de Libertação da Palestina
2. A França, por exemplo, não apoiou a resolução da ONU de 5 de novembro de 2009 que aprovava com uma ampla maioria as conclusões de uma comissão de investigação sobre “crimes de guerra e possíveis crimes contra a humanidade” em Gaza. Três semanas depois, o embaixador francês em Tel Aviv assegurava ao Estado de Israel a amizade da de Francia e atacava a comissão de investigação da ONU.
3. O Mandato Britânico da Palestina, territórios ocupados pelos britânicos entre 1920 y 1948.

Related Link: http://www.alternativelibertaire.org

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